terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

01/01/2012 - O Primeiro Dia do Fim do Mundo - Parte 4

Antes de seguirmos para nosso novo destino, achamos necessário explicar à Nadja o que estava acontecendo e pra onde iríamos, afinal, ela está com o carro de Lucas.
De início ela reluta com a idéia, acha loucura e tenta nos convencer a deixarmos Adolfo para trás. "É uma má idéia!", "A essa hora, a esposa dele já está morta, ou coisa pior" - ela diz.
Mas Adolfo está decidido a salvar sua esposa. Seja trazendo a sem segurança conosco, ou dando lhe o merecido descanso.
E com certeza, não sou o único do grupo a achar que ele pode ser de grande ajuda. É um cara forte, determinado e apesar de os outros acharem que eu saiba usar uma arma, devido a meu tiro de sorte que salvou Gabriela, ele é o único que realmente tem a manha do negócio. E acho que nem preciso mencionar o carro-forte!
Sendo voto vencido, Nadja resolve nos acompanhar(acho que não teve muita escolha) com a condição de ter sua arma de volta. Eu disse que seria bom que alguém fosse no Doblò com ela para evitar que novamente, a perdêssemos de vista. Lucas se ofereceu para ir com ela e acho que entrou em acordo para ter seu carro de volta, devolvendo-lhe a arma.
Partimos para a Química torcendo para que encontrássemos a esposa de Adolfo viva e normal e que pudéssemos pegar alguns mantimentos da casa dele. Não sei se conseguiríamos dormir depois de tudo o que aconteceu, mas droga...se o local fosse seguro, com certeza eu gostaria de tomar um banho e deitar num colchão ou num sofá por algumas horas!

Algum tempo depois,chegamos em nosso destino. Um prédio modesto, de três andares e próximo ao Parque de Exposições da cidade.
Estacionamos os carros perto da porta de entrada, preparados para uma fuga rápida, caso fosse necessário.
Antes de entrar, pedimos para que Adolfo nos explicasse como eram os andares, as escadas, quantas pessoas moravam lá dentro e se havia outra saída além da porta à nossa frente.
"São três andares, mais o terraço. Um apartamento por andar. Aqui no térreo tem o hall de entrada e uma sala onde funciona a lavanderia.  A escada não é muito larga, mas podemos subir em duplas, sem problemas. No primeiro andar mora um casal de idosos. São tranquilos e muito gente boa, espero que estejam bem. No segundo andar mora uma família. E no terceiro, só eu e minha esposa." - disse ele.
Um apartamento por andar, um casal de idosos, uma família e um casal de meia-idade. Há 10 anos atrás, eu poderia entrar e sair desse lugar tranquilamente. Seria como roubar doce de criança...mas os tempos mudaram e as pessoas mudaram...algumas, pra coisa muito pior!

Não sei o que diabos aquela russa estava pensando, mas ela passou uma pasta preta na cara...e o Lucas também passou. Como se ter a cara preta fosse ajudar de alguma forma pfff. Se fosse assim o Adolfo não teria problemas em trazer sua esposa.
Ok, isto pode ter soado meio racista,  mas o cara é negro e nem por isso os zumbis, demônios, ou o que forem, deixaram de ir atrás dele no supermercado! Não vai ser por causa de uma maquiagem que ficaremos a salvo, tenho certeza! Aliás, não tenho! Até agora, nós só sabemos que eles são atraídos pelo barulho.
Enfim, nesse momento Joanna me chamou pra longe do grupo, ela estava preocupada com o fato de Suzana estar nervosa demais, o que poderia fazer com que ela, inconscientemente, causasse algum problema, mesmo tentando ajudar.
Admito que eu também estava preocupado com isso. E é claro, também não havia esquecido que a maluca havia apontado uma Magnum pro meu saco!
Conversei separadamente com Adolfo e apesar de o resto do grupo ficar desconfiado com tantos "segredinhos", ele era o único que poderia convencer Suzana a entregar a arma, ou ficar no carro enquanto nós estivéssemos no prédio. Ele conversou com ela, uma vez mais olhares desconfiados foram trocados. Aliás, acho que a única que não desconfia de mim é a Joanna...
Suzana entregou a arma para Adolfo, mas como todos já esperavam, se recusou a esperar no carro então, entramos no prédio. Exceto Nadja, que foi procurar uma maneira de entrar pelo terraço.
Não me importei. Ela já mostrou que consegue se virar e iria acabar sumindo de nossas vistas alguma hora.

Enquanto fechávamos a porta, vimos um homem correndo rua abaixo em nossa direção. Não esperamos pra ver seu estado, nem se ele nos havia visto, só fechamos a porta e aguardamos silenciosamente. O homem continuou correndo em direção à linha férrea, ao que parece, não nos notou.
Acendemos as luzes já que o primeiro raiar do Sol de 2012 ainda levaria algumas horas. A nossa frente as escadas para o primeiro andar, ao lado, o balcão do zelador e atrás dele, as portas da lavanderia.
Todos concordamos que deveríamos verificar todas as portas. No caso de estarem fechadas, seguiríamos em direção ao apartamento do Adolfo. Do contrário, entraríamos em busca de sobreviventes e utensílios que pudessem nos ajudar, além é claro, de garantir que nada subisse atrás de nós e nos pegasse de surpresa.
Lucas se antecipou e foi em direção ao balcão. Fui com ele, dando algumas dicas para que fizesse menos barulho e se movimentasse corretamente, para não chamar atenção de ninguém que pudesse estar por ali. Nada atrás do balcão, seguimos para uma das duas portas atrás dele. A primeira que abrimos era um depósito. Só encontramos uma cadeira de madeira velha, da qual tirei os quatro pés para fazer pequenos "cacetetes" e algumas folhas de papel e canetas. Peguei  as folhas e uma caneta, podem ser úteis no futuro.

A porta era como a de um Saloon de filmes de faroeste, então, assim que o último de nós entrou, ela se fechou atrás de nós. Os únicos que não entraram foram: Leanderson e Joanna.
Assim que Adolfo acendeu a luz nos deparamos com um jovem rapaz ao lado de Gabriela e uma senhora próxima a duas tábuas de passar roupas.
Atrás da senhora, uma caçamba de roupas sujas e ao nosso redor, armários e máquinas de lavar industriais.
E então tudo aconteceu ao mesmo tempo! O garoto gritou enfurecido! Gabriela correu pra cima dele(de novo!) Eu corri em direção às tábuas e, por sorte elas não estavam chumbadas ao chão.
Peguei uma das tábuas pelos pés e pressionei a senhora zumbi contra a caçamba de modo que ela não conseguia esticar seus braços pra tentar me agarrar.
Num piscar de olhos, Adolfo deu uma coronhada com a calibre 12 na cabeça do garoto que, instantaneamente foi acho chão e, ao mesmo tempo, surgem na lavanderia Leanderson e Joanna.
Com a faca em punho, Leanderson veio em meu auxílio e cortou a garganta da mulher, que caiu segurando o pescoço tentando se agarrar à vida, ou ao que restara dela.
Uma vez mais, a sorte estava do nosso lado e todos saíram bem. Suzana estava encolhida, tremendo entre duas máquinas de lavar.
Pensei que Joanna estaria acostumada a ver cenas desse tipo, já que ela estava quase se formando em Medicina, mas como eu disse, as coisas mudaram. Ela não aguentou e vomitou, mas logo se recompôs.
E então, quando tudo estava se acalmando, Gabriela nos chamou.
Acariciando o lado esquerdo do rosto(o qual eu me lembrava, havia respingado sangue quando estourei a cabeça do primeiro zumbi, no condomínio de David) ela nos disse:
"Meu rosto está ficando dormente..."

domingo, 19 de fevereiro de 2012

01/01/2012 - O Primeiro Dia do Fim do Mundo - Parte 3

Como os "zumbis" começaram a perseguir Leanderson, conseguimos ligar o carro e manobrar para sair do condomínio. Chegamos perto do local combinado, mas não havia sinal nem dele, nem do rebanho.
De repente, alguma coisa atravessou a cerca viva. Era Leanderson, mas até que fosse possível ver que ele continuava consciente, não paramos o carro, apenas reduzimos a velocidade.
Tendo constatado isso, já que seus movimentos eram firmes e seus olhos possuíam apenas o desespero, paramos por tempo suficiente para que ele entrasse e então continuamos nosso caminho em direção à BR-393, passando pela Vila Helena.
Estávamos reorganizando nossos pensamentos quando um farol acende atrás de nós. Uma moto, aparentemente uma Harley.
Pilotando a moto, havia uma mulher, loira...russa. Nadja! Como não percebemos que ela havia sumido? E onde estava a maleta de aço?
Lucas manobrou o carro e fomos em direção a ela, apenas para descobrir que a maleta já havia sido entregue, ou pelo menos, era isso que ela afirmava.
Mais uma vez, começamos um pequeno interrogatório do qual não tiramos nenhuma informação que fosse realmente útil. Descobrimos apenas que ela pretendia seguir para a capital ou para qualquer lugar que possuísse um heliporto.

Uma vez mais, tínhamos Nadja em nossa companhia e o fato de ela precisar chegar a um heliporto, nos fez pensar que ela possuía um refúgio seguro em algum lugar e que tinha meios de chegar até ele. Decidimos acompanhá-la até o heliporto. Afinal, um local seguro, independentemente de onde, já era uma excelente idéia para nós.
Como a viagem poderia durar mais do que o previsto, tínhamos a noção de que já não vivíamos num mundo normal, chegamos ao consenso de que seria necessário pegarmos algumas coisas que pudessem ser úteis na viagem e, principalmente, alguma comida e água.
E em nosso caminho, uma ótima opção para tudo isso: um supermercado.

Ficou decidido que, por conseguirmos fazer menos barulho que os outros, Nadja e eu, entraríamos no supermercado para abrir as portas e então chamaríamos os outros para que conseguíssemos carregar mais coisas em menos tempo.
Todas as luzes estavam apagadas, mas era possível ouvir um ruído vindo do fundo de um dos corredores. A fim de averiguar a origem do ruído, Nadja pegou um recipiente plástico e misturou alguns produtos que não consegui identificar. Em seguida, arremessou o recipiente para um dos corredores à nossa frente.
Durante algum tempo, nada aconteceu. Nenhum movimento, nenhum barulho...apenas a escuridão e o silêncio além do ruído ao fim do corredor.
Seguimos com cautela até enxergarmos uma fraca luz saindo de uma sala pequena. Lá dentro, um rádio chiava, sem sinal de seu dono. Havia marcas de sangue no chão, logo, existia alguém lá dentro...provavelmente, o vigia. Não queríamos acreditar que fosse algo pior.
Pegamos algumas cestas e iluminamos o caminho com as lanternas dos celulares, para evitar acender as luzes do supermercado e acordar o vigia, caso ele estivesse apenas dormindo, e para não atraírmos nada que estivesse andando fora do estabelecimento.
Enquanto "íamos às compras", escutamos um barulho vindo da ala ao lado. Parecia que se dirigia na mesma direção que a gente, portanto, nos encontraríamos com o que quer que fosse, assim que chegássemos ao fim do corredor. Fiz sinal para que parassem e aguardassem ali enquanto eu dava a volta por trás do corredor onde estávamos para descobrir o que era.
Consegui me esgueirar e chegar até nosso perseguidor, o vigia.
Com a arma em sua cabeça, ordenei para que me desse sua arma e que acendesse sua lanterna, para que o grupo pudesse nos identificar quando nos visse.
Agora, além da pistola com silenciador, eu tinha também um revólver. Nada mal pra quem havia acabado de sair da prisão e pensava em começar uma nova vida, hein!?
Tentamos explicar o que aconteceu e que não éramos ladrões...na verdade, estávamos roubando mercadoria do supermercado, mas na situação em que o mundo se encontra atualmente, era questão de tempo até que outras pessoas fizessem o mesmo. Pelo menos não estávamos depredando o lugar, apenas pegando o suficiente para conseguirmos comer até chegar onde precisávamos.
O vigia, apesar da idade avançada, era com certeza mais confiável que o guarda da guarita do condomínio onde David morava, mas se recusava a acreditar no que dizíamos. Ele nos explicou que as marcas de sangue eram dele. Havia caído da escada tentando trocar a lâmpada e se cortou com o vidro.
Mesmo não acreditando na história que contamos, ele aceitou nos ajudar a carregar o carro para irmos embora rápido. Não que tivesse alguma opção, já que as armas estavam comigo, mas eu não faria mal algum a ele. Eu sabia que ele realmente não tinha noção do caos que estava acontecendo nas ruas.
Foi quando as coisas estavam parecendo começar a dar certo e pronto, mais uma vez, o destino resolve nos testar.

Uma luz forte vindo do lado de fora do supermercado, se aproximava cada vez mais rápido. Pneus cantando enquanto o motorista tentava controlar o carro e de repente, BUM! Um carro forte invadiu o supermercado!
Antes da colisão, só tive tempo de correr e me esconder atrás de uma das prateleiras. Não vi o que aconteceu com Lucas e os outros, apenas corri e me escondi, evitando ser atingido pelo carro ou pelas prateleiras que ele derrubou.
De dentro do carro forte, saiu uma pessoa, mas ficou encoberta pela porta do carro e escondida pelas sombras. Um "click" rápido e BAM! Um tiro pro lado de fora...provavelmente, algum zumbi acabava de ser eliminado.
Tentei me aproximar e render a pessoa, da mesma forma que fiz com o vigia, afinal, um carro blindado seria bem mais útil que um Doblò, mas quando cheguei na porta, não havia mais ninguém.
Debaixo do carro, uma voz feminina me mandou largar a arma pra que minhas bolas fossem mantidas!
Tá bom queridinha, o bicho tá pegando e vou largar minha arma só porque alguma garota escondida tá mandando.
Uma das coisas que aprendi antes de ir pra prisão, é que em uma situação ruim que parece não ter saída,  você deve ganhar o máximo de tempo possível. É sempre bom adiar o fim, ainda que por alguns segundos. Com sorte, você adia o fim por mais algumas horas, ou alguns anos.
Mas a garota parecia cada vez mais nervosa e pronta pra atirar a qualquer momento. E acreditem, eu dou muito valor às minhas bolas!
Foi então que a cavalaria chegou...mas infelizmente pra mim, era o apoio dela! Agora, além de ter uma arma apontada pro meu amigo, tinha uma, ainda maior, cutucando minhas costelas.
"Largue as armas!", agora, uma voz masculina bradava em alto e bom tom!
O homem parecia irredutível em sua oferta para que eu largasse as armas, mas mais calmo que a garota que, agora já não estava mais embaixo do carro.
Arremessei as armas para longe, e falei mais alto, na esperança de que Lucas, ou a Nadja me ouvissem e pegassem as armas para conseguir me tirar daquela situação. Se Leanderson, Gabriela ou Joanna pegassem as armas, provavelmente eu continuaria mais seguro só com a que estava nas minhas costelas.
Após averiguar que eu não era uma ameaça e de eu dizer que estávamos no supermercado pelo mesmo motivo, o policial baixou a arma e me explicou que no centro da cidade a situação era pior.
"As pessoas estão possuídas! Um atacando o outro, mordendo, arranhando, sem motivo! Estão todos loucos! Isso é coisa do demônio!", dizia ele.

Lucas e Gabriela apareceram logo depois, se rendendo e sendo revistados, assim como eu.
Pouco depois, a mulher que havia ameaçado minhas partes baixas, voltava com o resto de nosso pequeno grupo como reféns.
Ela parecia não acreditar que seu parceiro havia baixado a guarda. Então enquanto ele explicava que nós éramos pessoas normais, sem o demônio no corpo, o vigia apareceu com as duas armas que eu havia descartado!
O vigia e a mulher apontavam as armas um para o outro, até que o policial soltou sua arma calibre 12 e falou para ela obedecer. O velho estava descontrolado. Também pudera.  Dois grupos distintos invadem o lugar que ele deveria proteger, falando maluquices sobre pessoas estarem possuídas, terem virado zumbis. Meras desculpas para roubar mercadoria, deve ter pensado...
E com todo o barulho que fizemos, um novo rebanho começava a se formar na rua e caminhava em nossa direção.

O vigia ficou indeciso sobre o que fazer(éramos oito pessoas para ele ficar de olho e os zumbis estaam chegando), então sugeri que nos deixasse dentro do carro forte. Parece que ninguém entendeu minha sugestão, mas se vou esperar que um vigia idoso lute contra zumbis ou demônios para que eu continue vivo, estar preso dentro de um carro forte não me pareceu tão ruim.
Não sabemos o que de fato aconteceu, apenas ouvimos o velho gritar algumas coisas e depois, o som de um disparo.

A porta do carro forte se abriu e o velho nos mandou sair, devolvendo as armas pra gente. Inclusive a que era dele.
Ele finalmente acreditava no que havíamos dito, mas a verdade custou caro. Ele possuía um ferimento causado por um dos zumbis, ou possuídos...sei lá, chame do que quiser.
"Apenas peguem o que precisarem e vão embora" disse o velho, dando as costas para nós e caminhando rumo a sua cadeira.
Se me lembro bem dos filmes de zumbi que assisti antes da prisão, ser ferido por um deles era o que fazia com que você se tornasse um deles.
Apontei a arma pra cabeça do velho enquanto ele caminhava para longe, desolado. Por alguns segundos, pensei em acabar com a vida dele e impedir que se tornasse uma aberração, mas um tiro atrairia novos zumbis e nós íamos deixar o local assim que pegássemos algumas caixas de enlatados e algumas garrafas de água.

Para nossa surpresa, uma vez mais, Nadja não se encontrava entre nós.
"O Doblò!" Todos pensaram. "Ela vai pegar nosso carro e fugir".
Explicamos o que havia acontecido conosco o mais rápido possível para Adolfo e Suzana e chegamos a conclusão de que juntos teríamos mais chance de sobreviver, ainda mais com um carro forte e o treinamento que Afonso tem com armas de fogo.
Ah, sim...Adolfo é o policial que dirigia o carro forte. Um negão daqueles que se você vê chegando com algemas na prisão, torce para que ele seja colocado em outra cela. Suzana, assim como a Joanna, é uma japonesa...sensei, nissan...sei lá como é que chamam, mas ao contrário do que pensávamos, ela não é policial. Ela foi salva pelo Adolfo enquanto ele passava pelo centro da cidade.

Agora temos mais duas pessoas no grupo. Pela maneira como Suzana está no fundo do carro, parece que ainda vamos ver coisas muito piores pela estrada.
Precisamos encontrar Nadja para conseguir fugir dessa loucura, mas antes, vamos até a casa de Adolfo para que ele se certifique de que sua família está bem, ou que pelo menos descanse em paz. Essa foi a condição que ele impôs para seguir conosco...e ninguém se mostrou contrário à idéia de termos alguém que realmente saiba atirar, do nosso lado.
Já perdi muito tempo escrevendo...hora de dirigir para a casa de Adolfo...Química, um bairro com ruas estreitas e de difícil acesso.
O ano mal começou...e o mundo já está acabando!

01/01/2012 - O Primeiro Dia do Fim do Mundo - Parte 2

Era apenas um gato revirando lixo...mas atualmente, ser precavido pode fazer a diferença entre continuar vivo ou morrer.

Continuando de onde havia parado.
Depois que o moleque foi embora, resolvemos nos preparar, caso precisássemos lutar por nossas vidas. Era meia-noite e os fogos de artifício, tão comuns nesse momento, não foram ouvidos. Ainda não sei o que me levou a ter essa idéia, mas peguei os que David havia comprado para nossa comemoração...de alguma forma, pensei que poderiam ser úteis.
Uma vez mais, ouvimos barulho vindo do portão. Dessa vez, eram os militares. Impacientes, queriam que abríssemos o portão para que entrassem, mas já havíamos visto, alguns momentos antes, os mesmos militares, invadindo a casa em frente e separando uma garotinha de sua família. Por quê eles fariam isso? O que eles queriam de nós?
Não abrimos o portão. Pelo interfone, dissemos que não sabíamos como abrir o portão e que o dono da casa não se encontrava. Eles insistiram e ordenaram ao guarda da guarita(um rapaz manco e completamente inapto para o trabalho) que abrisse o portão. Conseguimos convencê-lo, através de uma comunicação da linha interna do condomínio, a confirmar nossa versão de que não seria possível abrir o portão sem que David estivesse no local.
Quando parecia que eles arrombariam o portão para invadir a casa, ouvimos gritos histéricos. Gritos estes, que também despertaram a atenção dos militares.
Uma vez mais, nos sentimos seguros. Como somos tolos não é verdade?
Quando os barulhos cessaram, olhamos as imagens do circuito de segurança, mas a única coisa que vimos, foi o guarda da guarita caído, provavelmente ferido. Tentamos contato com ele, mas parecia que ele não conseguia articular palavras.
Alguns de nós tentaram buscar seus pertences nos carros, mas ainda na garagem, foram surpreendidos por Nadja, a russa loira, que agora trajava uma roupa diferente da que estava anteriormente, e apontava uma arma para eles. Da janela do segundo andar, não consegui entender o motivo que a levou a tomar essa atitude, mas não ia esperar até que ela apontasse a arma pra minha cabeça, para perguntar.
Como havíamos pensado, a maleta tinha alguma coisa de importante e ela voltou para buscá-la. Nunca gostei de armas de fogo. Elas dão uma falsa sensação de poder e segurança e, graças a isso, eu sabia que Nadja não conseguiria manter os olhos em todos ao mesmo tempo. Éramos cinco pessoas na casa quando nos conhecemos, mas o caos que havia tomado conta da cidade e o fato de que ela se sentia segura por estar armada contra civis, fez com que ela não sentisse minha falta. Assim que ela passou pela escada, desci silenciosamente por trás dela e consegui desarmá-la com um chute.
Agora, éramos nós que possuíamos a arma hahahahahahaha. Grande coisa! Nenhum de nós sabia como usá-la. Mas eu não podia deixar isso transparecer e sabia que as pessoas ali não confiavam umas nas outras. Também percebi que, principalmente as mulheres, não haviam gostado de mim, desde o início. Mas até que foi fácil convencê-los a deixar a arma comigo.

Mesmo com a arma apontada para sua cabeça, Nadja não nos contou muita coisa sobre o que estava acontecendo. Disse apenas que a maleta continha um tipo de vacina para vacas e que devia entregá-la para alguém. Resolvemos que iríamos com ela até o local combinado para entregar a maleta e que depois resolveríamos o que fazer.
Quando estávamos chegando perto dos carros, estacionados ao lado de fora da casa, percebemos o guarda da guarita vindo em nossa direção. Cambaleando e emitindo sons estranhos, ele parecia bastante ferido, mas não parecia nos reconhecer.
Foi aí que vimos uma cena assustadora. Uma mulher, a mesma que havia perdido a filha para os militares, estava do outro lado da rua, com muito sangue saindo de sua boca e o mesmo olhar perdido que o guarda.
Ela gritou ou sei lá o que era aquilo e partiu correndo em nossa direção, como se fosse nos atacar. Para minha surpresa, Gabriela empunhou uma das facas que havia pego e partiu pra cima da mulher.
Gabriela errou a facada, a mulher a agarrou pelos braços e acho que ia mordê-la...não sei o que ela ia fazer, mas não consegui esperar. Eu estava com a arma de Nadja e por impulso, atirei.
Não pensei que fosse tão fácil estourar a cabeça de alguém, mas acho que numa situação dessas, o instinto de sobrevivência fala mais alto.
A arma tem silenciador, mas acho que o grito que a mulher deu atraiu outros gritos vindos de dentro da casa dela. Voltamos correndo para dentro da casa, trancamos o portão, mas um homem conseguiu entrar e ficou batendo na porta. Ele parecia normal e inconsciente ao mesmo tempo. Um homem e um garoto saíram correndo e gritando, da casa em frente. Agarraram o portão como e o chacoalhavam como se fossem destruí-lo a qualquer momento.

Estávamos novamente presos dentro de casa. Enquanto todos tentavam pensar numa maneira de se livrar do homem que batia à porta e sobre o que fazer com os outros dois no portão, fui pro andar de cima. Pensei que, se o grito da mulher que matei foi o que atraiu os outros que estavam no portão, então pode ser que, talvez, um barulho em outro lugar os atraísse.
Peguei os fogos de artifício e apontei para a casa de onde saíram, torcendo para que minha teoria se confirmasse.
Eles partiram e culminaram num belo espetáculo de cores e sons, mas o melhor do show foi que a dupla do portão também se interessou por ele.
Não tínhamos muito tempo até que os dois perdessem o interesse pelos fogos, então corremos em direção aos carros, um por um, fazendo o mínimo de barulho possível, já que esse é um dos fatores que atrai esses loucos...ou zumbis, seja lá como você queira chamá-los. Ainda não acredito que sejam zumbis. Seus corpos não estão se decompondo e alguns deles, como a família do outro lado da rua, correm! Eu nunca vi zumbis correndo nos filmes!
Quando quase todos nós estávamos no carro, o Doblò do Lucas, vimos uma cena assustadora. Um grupo imenso com esses "zumbis" vinha em nossa direção. Joanna estava saindo da casa de David e não acho que seria rápida o suficiente para chegar no carro antes que eles a alcançassem. E os dois que foram atraídos pelos fogos já voltavam sua atenção para nós de novo.
Foi quando Leanderson saltou do carro e disse para nos encontrarmos do outro lado do condomínio. Então ele gritou alguma coisa e saiu correndo em direção à cerca viva que circunda o condomínio. Apesar de acreditar que,  foi uma completa loucura, uma atitude suicida e impensada, admito que a idéia de Leanderson foi bem efetiva. O "rebanho de zumbis" começou a seguí-lo, alguns correndo, outros caminhando e cambaleando. Graças a isso, Joanna conseguiu chegar em segurança no carro e demos a partida, esperando encontrar Leanderson vivo, onde ele havia nos dito para esperá-lo...

domingo, 12 de fevereiro de 2012

31/12/2011 - O Primeiro Dia do Fim do Mundo. Parte 1

Manhã de sábado - Hoje é o grande dia!
Em algumas horas, sentirei uma vez mais, o delicioso sabor da liberdade!
Quando se fica preso por muito tempo, você sente falta até mesmo daquilo que antes era um incômodo. Quero sentir uma vez mais a chuva caindo sobre meu corpo, o vento bagunçando meus cabelos(assim que crescerem de novo), o Sol aquecendo minha pele! Quero poder olhar as pessoas nos olhos, ver rostos diferentes! Ouvir vozes diferentes!
Saber que tudo isso me aguarda lá fora, me devolve o ânimo que os anos se esforçaram para extinguir.
A primeira coisa que pensei ao acordar, foram as palavras de David: "Anime-se Adrian! O último dia do ano será o primeiro de sua nova vida!". Acho que ele nem percebeu a ironia, mas realmente, isso me animou bastante.

Madrugada de Domingo - As coisas não estão saindo como eu esperava! O mundo mudou enquanto estive preso, mas mudou pra pior! Ainda não acredito no que está acontecendo...as pessoas estão enlouquecendo!
Vou tentar resumir os últimos acontecimentos enquanto estamos "seguros".

Por volta de 18 horas, David me buscou na prisão. Ele não parecia mais aquele garotinho indefeso da escola. Agora, exalava a confiança e austeridade que um médico do porte dele possui.
Quando chegamos em sua mansão, ou "humilde moradia" como ele diz, a festa já havia começado. Ele me apresentou aos outros convidados que já haviam chegado.
Devo dizer que não fiquei surpreso em ver a diversidade existente no círculo de amizades dele, afinal, se a vida seguisse seu curso normal, eu jamais o teria conhecido.
Era perfeitamente plausível que uma festa promovida por David em sua casa, reunisse ao mesmo tempo uma estudante de medicina, um nerd, uma garota maluca, um funkeiro e um ex-presidiário hehehehehe. Eu só não esperava a loira russa que sequer nos notou enquanto conversava ao telefone.
Aliás, acho que David tinha algum interesse nela já que, na primeira oportunidade, se mandou pro "supermercado" pra comprar algumas coisas que estavam faltando pra festa.
Foi só quando eles saíram, que a estagiária de David, Joana, percebeu que a russa havia esquecido sua maleta de aço que possuía uma luz azul piscando.
Com a notícia de que o exército estava nas ruas e que um golpe militar era iminente, a preocupação sobre o conteúdo da maleta fez com que todos na sala começassem a elaborar teorias diversas.
A garota maluca, Gabriela queria abrir a maleta de qualquer jeito, mas sem saber como. Ela e Joana olharam para Lucas, o nerd que leva um computador para uma festa de ano novo. O único que não parecia se preocupar com a maleta, mais que com a carne tostando na churrasqueira, era Leanderson.
Aliás, fico meio incomodado com sua presença. Ele poderia ser uma versão minha, caso não tivesse a sorte de ter sido escolhido pelos pais de David pra ganhar aquela bolsa escolar.

O bom senso parece ter batido na cabeça de todos na sala e resolvemos ligar para David, e avisá-lo sobre a maleta e perguntar como deveríamos proceder. Ele disse que, segundo Nadja(a russa), não havia nada de importante na maleta e que ela voltaria em breve para buscá-la.
Nesse ínterim as coisas começaram a ficar estranhas...a TV saiu do ar, não era possível sintonizar nenhuma estação de rádio e os telefones estavam mudos.
E foi aí que tudo desandou de vez! Começamos a ouvir barulhos de helicópteros e pouco tempo depois, pessoas gritando nas proximidades.
O rádio voltava aos poucos, com mensagens cortadas que pouco informavam, eram repetidas à exaustão. A única coisa que conseguíamos ouvir era: "Mantenham-se em suas casas".

Percebemos através do sinal do rádio, uma mensagem codificada. Código Morse. Lucas conseguiu decifrá-la, mas não revelou todo o conteúdo da mensagem para nós. Apenas repetiu o que já havíamos ouvido no rádio.
E então, a mensagem que eu já ouvira em filmes e nunca esperava ouvir na vida real, surgiu novamente no rádio: "Cuidado! Mantenham-se em suas casas...sendo atacados....zumbis por toda a parte!"

Zumbis!? Aqueles mortos-vivos que querem comer nossos cérebros? Zumbis!? hahahahahahaha
Foi aí que ouvimos um barulho no portão. O desespero tomou conta da gente. Joana disse que poderiam ser os militares atrás da maleta que Nadja havia, supostamente, esquecido. Com medo de qualquer coisa que os militares pudessem fazer conosco, Gabriela escondeu a maleta no congelador....até agora não entendi o que ela quis fazer com isso.
Batidas na porta e gritos de "Daivid, abra a porta! Daivid, abra a porta!" foram suficientes para sabermos não se tratar dos militares, mas a esse ponto, não era possível confiar em ninguém que viesse de fora.
Ele estava frenético...se fosse em qualquer outra situação, eu diria que o garoto havia cheirado o próprio peso em cocaína! Saiu correndo assustado para o andar de cima e escondeu-se embaixo da cama.
Tentamos acalmá-lo, mas ele não confiava na gente. Leanderson tentou tirá-lo debaixo da cama, mas era afastado pelos chutes que o garoto desferia.
Levantamos a cama e Leanderson conseguiu segurá-lo à força, mas ele não prestava atenção ao que dizíamos e não parava de se debater.
Fui obrigado a dar um calmante pra ele...ok...dei um tapa na cara dele pra ser sincero. Mas funcionou.
Joana notou que ele estava ferido, o que não era uma boa notícia para uma possível situação envolvendo ataques de zumbis e exércitos na rua.
Após ter seu ferimento tratado e o aval de Joana, ainda que sem muita certeza, de que ele não ofereceria perigo, ele nos contou que fugiu para a casa de David porque haviam pessoas brigando na rua e que os militares estavam batendo em todo mundo, tentando tomar o controle da situação.
Leanderson, Lucas e Gabriela estavam incomodados com a presença dele e exigiram que fosse embora. Joana e eu, tentamos argumentar, dizendo que não seria seguro para ele sair sozinho na rua de novo, com todo o caos acontecendo bem perto de nossa porta, mas eles estavam irredutíveis e, ao que parece, o moleque estava assustado demais com a gente e resolveu que era mais seguro voltar pra rua.

Ouvi um barulho aqui perto, vou verificar como todos estão e com sorte, volto a escrever de onde parei...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

30/12/2011 - A calmaria antes da tempestade - parte 2

São 9 horas da manhã, acabo de receber um telefonema de meu amigo de infância, David.
Nos conhecemos na escola primária. Os pais dele sempre tiveram muita grana e apoiavam um projeto social onde "adotavam" crianças cujas famílias não tinham condições financeiras de dar uma boa educação a seus filhos. 
Pois é, foram os pais de David que me deram a primeira oportunidade de me tornar alguém na vida.
Infelizmente eles não foram minha única influência e a escola cara que pagavam pra mim, não era o único local onde eu aprendia coisas novas. Talvez, fosse o único local onde eu aprendia coisas boas.
Entretanto, posso dizer que, o que aprendi nas ruas, de certa forma ajudou a fortalecer a amizade que tínhamos, já que era eu quem impedia que David acabasse na lata do lixo no intervalo das aulas pelos valentões. Humpf...valentões hahahahaha até parece que aqueles moleques riquinhos tinham alguma valentia. Podiam achar que eram fortes estando em grupo, mas mesmo dessa forma, aposto que sujariam suas calças se passassem um dia no bairro onde cresci.
Conversamos um pouco ao telefone e descobri que ele agora é professor em uma universidade. Quem diria...aquele garotinho indefeso que passava mal quando precisávamos dissecar um sapo na aula de biologia, hoje responde por Doutor David.
Ele disse que ficou sabendo de minha situação, e que não acredita que fui o responsável por tudo aquilo que os noticiários informavam.
Disse também, que viria me buscar quando eu saísse e que eu estava intimado a comparecer em sua festa de ano novo em sua "humilde moradia". Uma festa com direito a tudo de bom e de melhor. Depois de 10 anos comendo aquela coisa horrível que chamam de comida por aqui, o que mais eu poderia querer!?
Ao final da ligação, me fez um convite para trabalhar com ele em um novo projeto e antes que eu pudesse pensar em responder, ele desligou, deixando no ar palavras que em meus ouvidos, soaram como música: "Só mais um dia e você estará livre novamente!"

sábado, 4 de fevereiro de 2012

26/11/2011 - A calmaria antes da tempestade

Seja bem-vindo ao meu mundo.
Sei que provavelmente ninguém terá acesso a meus escritos, mas após alguns anos afastado do mundo externo, confesso que esta é uma maneira bastante eficaz de não perder completamente a sanidade.
Caso alguém venha a ter acesso a esse diário, meu nome é Adrian Dias. Pode ser possível que você me conheça pelo nome que as revistas e jornais costumavam me chamar há 10 anos, o "Cérebro".
Naquela época, eu costumava fazer algumas coisas que não eram muito bem aceitas por pessoas de bem. Eu não era um "peixe grande", estava mais para "o cara que consegue acesso aos lugares e que detém as informações". Uma espécie de detetive, apesar de a maioria das pessoas usar o termo "invasor".
Em um de meus trabalhos, fui pego pelos federais e me ofereceram um acordo: eu daria todas as informações e acesso aos arquivos de uma grande quadrilha e em troca, eles me dariam a oportunidade de começar uma nova vida.
Como você pode perceber, as coisas não saíram como eu planejava. Alguns dos agentes já haviam se corrompido e faziam parte do esquema. Eles plantaram provas e forjaram uma operação que culminou na prisão de uma quadrilha inimiga que planejava assassinar o delegado. E como o apelido que os jornais me deram sugere, me apontaram como o chefe dessa quadrilha, o cérebro por trás do plano.
Cumpri parte da minha pena em uma penitenciária estadual, mas fui transferido pra uma cela pequena de uma delegacia em minha cidade natal, no interior do Estado. Me disseram que fui transferido pra cumprir o resto da pena aqui porque me comportei bem, mas ouvi rumores de que um suposto Golpe Militar tem sido planejado e vão precisar das celas maiores para peixes graúdos.
Faltam 5 dias pra minha soltura, coincidentemente, na virada do ano. Os Maias previram o fim do mundo para 2012.
Pode ser que eles estejam corretos, mas prefiro acreditar que é apenas um novo ano começando...e com ele, uma nova vida.