domingo, 19 de fevereiro de 2012

01/01/2012 - O Primeiro Dia do Fim do Mundo - Parte 3

Como os "zumbis" começaram a perseguir Leanderson, conseguimos ligar o carro e manobrar para sair do condomínio. Chegamos perto do local combinado, mas não havia sinal nem dele, nem do rebanho.
De repente, alguma coisa atravessou a cerca viva. Era Leanderson, mas até que fosse possível ver que ele continuava consciente, não paramos o carro, apenas reduzimos a velocidade.
Tendo constatado isso, já que seus movimentos eram firmes e seus olhos possuíam apenas o desespero, paramos por tempo suficiente para que ele entrasse e então continuamos nosso caminho em direção à BR-393, passando pela Vila Helena.
Estávamos reorganizando nossos pensamentos quando um farol acende atrás de nós. Uma moto, aparentemente uma Harley.
Pilotando a moto, havia uma mulher, loira...russa. Nadja! Como não percebemos que ela havia sumido? E onde estava a maleta de aço?
Lucas manobrou o carro e fomos em direção a ela, apenas para descobrir que a maleta já havia sido entregue, ou pelo menos, era isso que ela afirmava.
Mais uma vez, começamos um pequeno interrogatório do qual não tiramos nenhuma informação que fosse realmente útil. Descobrimos apenas que ela pretendia seguir para a capital ou para qualquer lugar que possuísse um heliporto.

Uma vez mais, tínhamos Nadja em nossa companhia e o fato de ela precisar chegar a um heliporto, nos fez pensar que ela possuía um refúgio seguro em algum lugar e que tinha meios de chegar até ele. Decidimos acompanhá-la até o heliporto. Afinal, um local seguro, independentemente de onde, já era uma excelente idéia para nós.
Como a viagem poderia durar mais do que o previsto, tínhamos a noção de que já não vivíamos num mundo normal, chegamos ao consenso de que seria necessário pegarmos algumas coisas que pudessem ser úteis na viagem e, principalmente, alguma comida e água.
E em nosso caminho, uma ótima opção para tudo isso: um supermercado.

Ficou decidido que, por conseguirmos fazer menos barulho que os outros, Nadja e eu, entraríamos no supermercado para abrir as portas e então chamaríamos os outros para que conseguíssemos carregar mais coisas em menos tempo.
Todas as luzes estavam apagadas, mas era possível ouvir um ruído vindo do fundo de um dos corredores. A fim de averiguar a origem do ruído, Nadja pegou um recipiente plástico e misturou alguns produtos que não consegui identificar. Em seguida, arremessou o recipiente para um dos corredores à nossa frente.
Durante algum tempo, nada aconteceu. Nenhum movimento, nenhum barulho...apenas a escuridão e o silêncio além do ruído ao fim do corredor.
Seguimos com cautela até enxergarmos uma fraca luz saindo de uma sala pequena. Lá dentro, um rádio chiava, sem sinal de seu dono. Havia marcas de sangue no chão, logo, existia alguém lá dentro...provavelmente, o vigia. Não queríamos acreditar que fosse algo pior.
Pegamos algumas cestas e iluminamos o caminho com as lanternas dos celulares, para evitar acender as luzes do supermercado e acordar o vigia, caso ele estivesse apenas dormindo, e para não atraírmos nada que estivesse andando fora do estabelecimento.
Enquanto "íamos às compras", escutamos um barulho vindo da ala ao lado. Parecia que se dirigia na mesma direção que a gente, portanto, nos encontraríamos com o que quer que fosse, assim que chegássemos ao fim do corredor. Fiz sinal para que parassem e aguardassem ali enquanto eu dava a volta por trás do corredor onde estávamos para descobrir o que era.
Consegui me esgueirar e chegar até nosso perseguidor, o vigia.
Com a arma em sua cabeça, ordenei para que me desse sua arma e que acendesse sua lanterna, para que o grupo pudesse nos identificar quando nos visse.
Agora, além da pistola com silenciador, eu tinha também um revólver. Nada mal pra quem havia acabado de sair da prisão e pensava em começar uma nova vida, hein!?
Tentamos explicar o que aconteceu e que não éramos ladrões...na verdade, estávamos roubando mercadoria do supermercado, mas na situação em que o mundo se encontra atualmente, era questão de tempo até que outras pessoas fizessem o mesmo. Pelo menos não estávamos depredando o lugar, apenas pegando o suficiente para conseguirmos comer até chegar onde precisávamos.
O vigia, apesar da idade avançada, era com certeza mais confiável que o guarda da guarita do condomínio onde David morava, mas se recusava a acreditar no que dizíamos. Ele nos explicou que as marcas de sangue eram dele. Havia caído da escada tentando trocar a lâmpada e se cortou com o vidro.
Mesmo não acreditando na história que contamos, ele aceitou nos ajudar a carregar o carro para irmos embora rápido. Não que tivesse alguma opção, já que as armas estavam comigo, mas eu não faria mal algum a ele. Eu sabia que ele realmente não tinha noção do caos que estava acontecendo nas ruas.
Foi quando as coisas estavam parecendo começar a dar certo e pronto, mais uma vez, o destino resolve nos testar.

Uma luz forte vindo do lado de fora do supermercado, se aproximava cada vez mais rápido. Pneus cantando enquanto o motorista tentava controlar o carro e de repente, BUM! Um carro forte invadiu o supermercado!
Antes da colisão, só tive tempo de correr e me esconder atrás de uma das prateleiras. Não vi o que aconteceu com Lucas e os outros, apenas corri e me escondi, evitando ser atingido pelo carro ou pelas prateleiras que ele derrubou.
De dentro do carro forte, saiu uma pessoa, mas ficou encoberta pela porta do carro e escondida pelas sombras. Um "click" rápido e BAM! Um tiro pro lado de fora...provavelmente, algum zumbi acabava de ser eliminado.
Tentei me aproximar e render a pessoa, da mesma forma que fiz com o vigia, afinal, um carro blindado seria bem mais útil que um Doblò, mas quando cheguei na porta, não havia mais ninguém.
Debaixo do carro, uma voz feminina me mandou largar a arma pra que minhas bolas fossem mantidas!
Tá bom queridinha, o bicho tá pegando e vou largar minha arma só porque alguma garota escondida tá mandando.
Uma das coisas que aprendi antes de ir pra prisão, é que em uma situação ruim que parece não ter saída,  você deve ganhar o máximo de tempo possível. É sempre bom adiar o fim, ainda que por alguns segundos. Com sorte, você adia o fim por mais algumas horas, ou alguns anos.
Mas a garota parecia cada vez mais nervosa e pronta pra atirar a qualquer momento. E acreditem, eu dou muito valor às minhas bolas!
Foi então que a cavalaria chegou...mas infelizmente pra mim, era o apoio dela! Agora, além de ter uma arma apontada pro meu amigo, tinha uma, ainda maior, cutucando minhas costelas.
"Largue as armas!", agora, uma voz masculina bradava em alto e bom tom!
O homem parecia irredutível em sua oferta para que eu largasse as armas, mas mais calmo que a garota que, agora já não estava mais embaixo do carro.
Arremessei as armas para longe, e falei mais alto, na esperança de que Lucas, ou a Nadja me ouvissem e pegassem as armas para conseguir me tirar daquela situação. Se Leanderson, Gabriela ou Joanna pegassem as armas, provavelmente eu continuaria mais seguro só com a que estava nas minhas costelas.
Após averiguar que eu não era uma ameaça e de eu dizer que estávamos no supermercado pelo mesmo motivo, o policial baixou a arma e me explicou que no centro da cidade a situação era pior.
"As pessoas estão possuídas! Um atacando o outro, mordendo, arranhando, sem motivo! Estão todos loucos! Isso é coisa do demônio!", dizia ele.

Lucas e Gabriela apareceram logo depois, se rendendo e sendo revistados, assim como eu.
Pouco depois, a mulher que havia ameaçado minhas partes baixas, voltava com o resto de nosso pequeno grupo como reféns.
Ela parecia não acreditar que seu parceiro havia baixado a guarda. Então enquanto ele explicava que nós éramos pessoas normais, sem o demônio no corpo, o vigia apareceu com as duas armas que eu havia descartado!
O vigia e a mulher apontavam as armas um para o outro, até que o policial soltou sua arma calibre 12 e falou para ela obedecer. O velho estava descontrolado. Também pudera.  Dois grupos distintos invadem o lugar que ele deveria proteger, falando maluquices sobre pessoas estarem possuídas, terem virado zumbis. Meras desculpas para roubar mercadoria, deve ter pensado...
E com todo o barulho que fizemos, um novo rebanho começava a se formar na rua e caminhava em nossa direção.

O vigia ficou indeciso sobre o que fazer(éramos oito pessoas para ele ficar de olho e os zumbis estaam chegando), então sugeri que nos deixasse dentro do carro forte. Parece que ninguém entendeu minha sugestão, mas se vou esperar que um vigia idoso lute contra zumbis ou demônios para que eu continue vivo, estar preso dentro de um carro forte não me pareceu tão ruim.
Não sabemos o que de fato aconteceu, apenas ouvimos o velho gritar algumas coisas e depois, o som de um disparo.

A porta do carro forte se abriu e o velho nos mandou sair, devolvendo as armas pra gente. Inclusive a que era dele.
Ele finalmente acreditava no que havíamos dito, mas a verdade custou caro. Ele possuía um ferimento causado por um dos zumbis, ou possuídos...sei lá, chame do que quiser.
"Apenas peguem o que precisarem e vão embora" disse o velho, dando as costas para nós e caminhando rumo a sua cadeira.
Se me lembro bem dos filmes de zumbi que assisti antes da prisão, ser ferido por um deles era o que fazia com que você se tornasse um deles.
Apontei a arma pra cabeça do velho enquanto ele caminhava para longe, desolado. Por alguns segundos, pensei em acabar com a vida dele e impedir que se tornasse uma aberração, mas um tiro atrairia novos zumbis e nós íamos deixar o local assim que pegássemos algumas caixas de enlatados e algumas garrafas de água.

Para nossa surpresa, uma vez mais, Nadja não se encontrava entre nós.
"O Doblò!" Todos pensaram. "Ela vai pegar nosso carro e fugir".
Explicamos o que havia acontecido conosco o mais rápido possível para Adolfo e Suzana e chegamos a conclusão de que juntos teríamos mais chance de sobreviver, ainda mais com um carro forte e o treinamento que Afonso tem com armas de fogo.
Ah, sim...Adolfo é o policial que dirigia o carro forte. Um negão daqueles que se você vê chegando com algemas na prisão, torce para que ele seja colocado em outra cela. Suzana, assim como a Joanna, é uma japonesa...sensei, nissan...sei lá como é que chamam, mas ao contrário do que pensávamos, ela não é policial. Ela foi salva pelo Adolfo enquanto ele passava pelo centro da cidade.

Agora temos mais duas pessoas no grupo. Pela maneira como Suzana está no fundo do carro, parece que ainda vamos ver coisas muito piores pela estrada.
Precisamos encontrar Nadja para conseguir fugir dessa loucura, mas antes, vamos até a casa de Adolfo para que ele se certifique de que sua família está bem, ou que pelo menos descanse em paz. Essa foi a condição que ele impôs para seguir conosco...e ninguém se mostrou contrário à idéia de termos alguém que realmente saiba atirar, do nosso lado.
Já perdi muito tempo escrevendo...hora de dirigir para a casa de Adolfo...Química, um bairro com ruas estreitas e de difícil acesso.
O ano mal começou...e o mundo já está acabando!

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