segunda-feira, 23 de abril de 2012

Realidade, Sonho ou Loucura?

Acordei com febre e todo dolorido. Não sei quantos dias se passaram desde a conversa no banco.
Será que aquilo tudo foi um sonho? Não...sonho não. Teria sido um pesadelo?
Ou será que a prisão me deixou louco e agora estou num manicômio?
Não consigo enxergar direito, minha visão está embaçada, e a coloração extremamente branca do quarto não ajuda muito.
Ouço alguns sons, mas não consigo identificá-los e vários vultos passam por mim de vez em quando.
Graças aos anos escrevendo na escuridão da prisão, acho que vou conseguir deixar esse registro para que me lembre depois...
É isso. Agora minha cabeça começa a doer e está tudo girando, melhor voltar pra cama.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Primeiro Dia do Fim do Mundo - Conclusão

Depois de tudo o que vimos até agora, não podíamos nos dar ao luxo de sermos inocentes. Montamos um esquema de defesa. Subi no teto da porta que dá acesso ao terraço e improvisei uma lança com um dos bambus do varal.
Outras duas pessoas seguravam a corda esticada, um de cada lado, para que o moleque tropeçasse caso conseguisse arrombar a porta.
E se não me engano, Gabriela ficou aguardando com a faca em punho, na frente da porta, a uma distância segura.
Um bom tempo se passou e nem sinal de Leanderson ou do moleque. Eu tinha esperanças de que Leanderson estivesse a salvo. Ele corre bem e nasceu num lugar difícil, tem a malandragem necessária pra conseguir escapar.

Então a maçaneta começa a girar, a corda, estava tensionada a menos de 1 metro dela, eu estava preparado para espetar a cabeça de qualquer coisa que atravessasse a porta abaixo de mim.
A tensão aumentava no momento em que a porta se abria e então, a imagem de Leanderson se revelou para todos, mas não baixamos a guarda. Era um rosto conhecido, mas será que ainda era a mesma pessoa que passou as últimas horas com a gente?
Ele deu um passo a frente e em seguida, a criatura que um dia fora o primo e David, pulou em suas costas. Leanderson tropeçou na corda,  Gabriela investiu numa facada, mas errou e acabou ferindo Leanderson no rosto. Por sorte, nada de grave.
O moleque se preparou pra morder e então eu pulei e ataquei. Atravessei o crânio da criatura com a lança, do topo da cabeça, até sair pela garganta e ele ainda se movia!
Acho que alguém ainda conseguiu acertá-lo, mas não tenho certeza. Logo depois ele correu para a beirada do prédio e pulou!
Da mesma altura que matou o Adolfo ele pulou...e sumiu!

Enquanto alguns de nós procurava pela criatura, os outros viam como Leanderson estava.
Assim que ele se recompôs, tratamos de dar o fora daquele lugar infernal (espero que Samara não leia isso, ou pelo menos não me leve a mal por falar assim da casa dela).
Fomos para o supermercado, estávamos famintos. A única coisa que tínhamos comido depois da festa, foram alguns biscoitos.
Assim que chegamos lá, tive a ideia de entrarmos da mesma maneira que no outro supermercado, mas enquanto eu caminhava em direção à porta do depósito, eis que nosso grande amigo Papi age novamente! Não sei o que o cara fez, mas pensei claramente que já tínhamos falado pra ele que o barulho ATRAI as criaturas!
Entramos no supermercado e já pudemos perceber dois zumbis vindo em nossa direção em um dos corredores e pra melhorar a situação, um barulho metálico atrás de nós, anunciava que o primo do David havia nos perseguido até aqui.
A Samara parecia estar perdida em seus pensamentos, ou então havia sido hipnotizada pelos movimentos lentos e ritmados do zumbi no corredor, então a agarrei pela mão e corri para os corredores à esquerda, que levariam até a sala da direção e o depósito.

Olhei pra trás, mas ninguém nos seguiu, então ouvi tiros e resolvi voltar com a Samara atrás de mim.
Suzanna estava caída com o agora realmente morto, primo de David, sobre ela. Lucas havia acertado um tiro na cabeça dele e alguém o decapitou pra ter certeza de que ele não se levantaria. Suzanna tinha sangue na boca.
Leanderson e Joanna não estavam ali e ainda haviam dois zumbis nos corredores.

Dei a volta e vi Leanderson acabar com um deles, então segui para o outro corredor, onde estavam Gabriela, Lucas e Joanna e mais um dos zumbis.
Pelo visto, eles já haviam tentado atacá-lo e ele seguia um pouco mais rápido na direção deles. Passei correndo o máximo que pude e preparei o ataque com o porrete feito com a perna da cadeira que encontramos no prédio de Adolfo.
Errei o cálculo da distância e quando pensei que ia errar o golpe, o desgraçado deu um passo na minha direção e acertei em cheio a cabeça dele. Golpe de sorte!
Com os zumbis destruídos, conseguimos nos reagrupar e pegar algumas coisas pra comer.

Quando saímos do supermercado e começamos a nos dirigir em direção ao centro, Suzanna começou a se sentir mal. O sangue que havia na boca dela era do primo de David. O maldito cuspiu sangue na garota e ela começava a se transformar num deles!
Tentamos convencê-la a se acalmar e a parar pra descansar, mas ela ficou nervosa, pensou que a deixaríamos para trás.
Conversamos com ela até que ela se acalmasse, Leanderson ajudou dizendo que havia prometido a Adolfo que tomaria conta dela. Mas sabíamos a gravidade da situação. Era questão de tempo até que ela nos atacasse. Ela sabia disso. E então, se entregou.
Abrimos um carro para que ela pudesse se sentar e aguardamos com ela até que, devido a sua condição e fraqueza, ela caiu no sono.
E então, Lucas agiu e cortou sua garganta, terminando com o sofrimento antes que ele realmente começasse.
Em menos de 24 horas, era a terceira pessoa a morrer no meu primeiro dia de liberdade.

Continuamos nossa caminhada até o centro, onde tínhamos que escolher entre duas rotas para chegar até o Banco. Uma delas, significaria passar em frente a um parquinho infantil, e podíamos ver movimento dentro dele. A outra, significaria dar uma volta maior e passar por cima do viaduto para termos uma visão melhor da situação.
Até que vimos a Nadja saindo da rua em frente ao parquinho, uma rua transversal a que nos encontrávamos, correndo como se não houvesse amanhã. Leanderson não esperou e correu atrás dela.
Por um momento pensamos em seguí-los, mas Leanderson virou para trás e nos fez sinal de que a rua de onde Nadja havia saído estava infestada de zumbis.
Escolhemos passar pelo outro lado e o que vimos não foi nada esperançoso. As ruas estavam destruídas, com corpos para todos os lados, carros batidos, barricadas...tudo estava destruído.
Passamos por cima do viaduto e nos deparamos com um policial se levantando. Ele também era uma das criaturas..deixamos ele pra trás, até chegar do outro lado do viaduto, próximos à ponte que nos levaria até a rua perto do banco e do outro lado do parquinho.

Continuamos correndo pela ponte e ao final dela, vimos um grupo de zumbis em frente à pracinha. Conseguimos nos desvencilhar deles e, quando estávamos quase no Banco, um cara que estava em cima de um enorme busto de alguém importante, começou a atiçar zumbis na nossa direção.
Quatro deles nos perseguiram e o cara(mais um gordo) passou correndo ao lado deles, em direção ao banco também.
Eles nos usou como isca! Tentei derrubar o escroto e acabei caindo, perdendo meu porrete.
Os zumbis vinham atrás de mim. Consegui levantar e correr até o Banco.

Lá dentro, estávamos seguros, mas parecia que estávamos sozinhos, vigiados pelas câmeras de segurança.
Nadja parecia surpresa em nos ver vivos...e fingia não saber que ali era seguro.
Até que o elevador se abre e de dentro sai um homem com farda e um tapa-olho.
Disse que ia contar tudo o que quiséssemos saber, mas só quando estivéssemos no andar de cima.
Quando chegamos lá em cima, ele nos deu água e algo pra comer e nos deu um resumo da situação.
Não é só Barra do Piraí que está infestada...o país inteiro está assim! Parece um tipo de teste com armas biológicas. Um vírus que ele disse ter vindo de algum país do leste europeu havia sido liberado aqui.
E agora ele dizia contar com nossa ajuda para tentar reverter a situação ou torná-la menos catastrófica possível.
Falou que nos arrumaria equipamentos adequados e que nos instruiria em nossa missão, caso aceitássemos(ou, como prefiro acreditar, caso tivéssemos opção).
Depois de todas as explicações e de "acordos verbais", perguntamos seu nome.
"Me chamem de Cobra, é meu codinome" - ele disse.
E então, as luzes começaram a perder o foco, as palavras que saiam das bocas de meus companheiros começaram a perder o sentido. Vi o gordinho que atiçou os zumbis em nossa direção caindo desmaiado, depois vi Joanna, Gabriela...um por um.
Até que não vi mais nada...

O Primeiro Dia do Fim do Mundo - Parte 7

Pouco tempo depois de nos reorganizarmos, ouvimos um carro subindo a rua. Era o carro-forte do Adolfo, com furos de todos os lados e com um pneu furado.
Leanderson e Lucas estavam de volta, para o alívio de todos nós.
Nos sentamos pra conversar e decidir o que faríamos em seguida e então, Papi - pois é, o gordinho suado se chama PAPI! hahahahahahahahaha - disse que ia pra casa, ver sua família.
De imediato, dissemos que não íamos com ele, que era loucura e que acabamos de passar por uma situação parecida, mas o cara parece não entender que as coisas mudaram.
Contamos tudo o que nos aconteceu nas últimas 10 ou 12 horas, sei lá quanto tempo, mas ele insistia em ir ver a família e insistia para que fôssemos com ele, do contrário não arrumaria nossos carros.

E então, quando desejamos sorte a ele em sua missão suicida, o malandro simplesmente sai andando pela rua, revistando os nossos carros.
Fui atrás dele para tentar convencê-lo de que era loucura e para me certificar de que ele não ia fazer nenhuma merda nos carros - por pior que seja o estado deles, talvez ainda pudéssemos usá-los.
Aí ele começou a bater boca comigo, mais uma vez, como se fosse o dono da verdade, o senhor da situação e o rei do novo mundo. Aquilo me irritou e tentei acertá-lo com uma coronhada, mas acabei errando e me desequilibrando e ele conseguiu me acertar com a maleta de ferramentas.

Não sei o que houve enquanto estive desacordado, mas assim que despertei, o gordinho suado estava amarrado no chão da casa. Aquele escroto me tirou um dente com a maleta de ferramentas. Ele não faz ideia de com quem está se metendo. Na prisão, vi muito herói "acordar" morto.
Mas agora tenho que fazer jus ao apelido que me deram antigamente. Não posso deixar a raiva me distrair, mas com certeza não vou esquecer o que esse puto me fez.

Voltamos a nos preocupar com nosso destino e se levaríamos o Papi conosco ou o deixaríamos apodrecer no porão.
Apesar de eu insistir que não devemos confiar nele, o pessoal concluiu de que ele seria mais um pra nos ajudar e o desamarraram na condição de que não fizesse mais nenhuma besteira.
Enquanto estive desacordado, um dos caras encontrou a maleta prateada que a Nadja havia levado para a festa.
Havíamos concordado em ir para o Centro da cidade, fazendo uma parada num supermercado para podermos comer, mas ao invés de seguirmos, começou uma discussão sobre se deveríamos ou não abrir a maleta.
Se dependesse de mim, eu jogaria essa maleta o mais longe possível. Os militares estão atrás dela e, pelo que sabemos, ela tem um GPS.
Ainda assim, meus companheiros insistiam que devia ter algo ali dentro que seria útil.
O fato de o Papi ter dito que o cara que o chamou para arrumar seu carro, era o defunto que eles encontraram segurando a maleta, me deu mais um motivo pra não querer essa coisa perto de mim.

Eles resolveram abrir a maleta. Eu disse que poderia conter algo ruim, talvez o vírus que ocasionou esse caos todo e lembrei que o ditado diz que: "a curiosidade matou o gato".
Um gato tem sete vidas e a curiosidade o matou, mas parecia que eles não se importavam com isso...enquanto digitavam os números da senha para abrí-la, segui em direção à travessia, rumo ao supermercado.

Tinha um celular que tocou assim que a maleta foi aberta. Lucas disse que a pessoa com quem ele falou ao celular, nos instruiu a irmos ao Banco do Brasil no centro, que lá era um local seguro.
Mas antes de podermos decidir se íamos ou não confiar no cara do telefone, nos deparamos com o primo de David. Aquele que acolhemos na noite anterior e que, por estar eufórico e ferido, o pessoal insistiu para que fosse embora.
Ele estava completamente diferente, tinha um olhar insano e cruel e se curvou para a frente com as mãos - ou garras - arrastando no chão, uivando e correndo em nossa direção.
Voltamos correndo para o terraço da casa de Samara. Fechamos a porta e aguardamos para ver se ele tentaria arrombá-la.
E então, percebemos que Leanderson não estava com a gente.

quinta-feira, 29 de março de 2012

O Primeiro Dia do Fim do Mundo - Parte 6

Aquilo foi um baque para todos nós.
Inacreditavelmente, Suzanna suportou bem a perda de seu guardião.
Samara, a garota que observava a confusão toda do parapeito do prédio, nos ofereceu sua casa para passarmos o resto da noite e, de bom grado, aceitamos. Conversamos um pouco sobre a morte de Adolfo e de tudo o que vinha acontecendo e tínhamos receio do que ainda poderia acontecer, mas a fome e o cansaço me fizeram deixar as preocupações para quando o dia estivesse claro.
Talvez, tudo o que eu precisasse era apenas dormir um pouco. Dormir e descobrir que, ao acordar, toda aquela loucura não havia passado de um pesadelo.

Infelizmente, poucas horas depois, ter a visão da bela Nadja me acordando, acabou com minhas esperanças...não era um pesadelo!
Quando cheguei no andar de baixo, fui surpreendido por uma cena bizarra. Lucas e Leanderson estavam revistando um desconhecido.
Um cara gordinho e todo suado, num macacão de mecânico, todo sujo de graxa. Eles me disseram que ele havia batido à porta pedindo socorro e eles o deixaram entrar.
Não fiquei muito confortável com isso. Acho muito estranho que ele tenha conseguido chegar até a casa da Samara sem ter sido ferido. E como ele passou por aquele mar de zumbis? Ele não me passa muita confiança e a maneira como fala com a gente, como se fosse o dono da situação, o líder do grupo, não me agrada.
Ele contou uma história sobre ele e o irmão terem vindo atender um chamado de um cara cujo carro deu problema e o irmão foi atacado.
Olha, pra quem perdeu o irmão praquelas coisas ele tá muito tranquilo. Pelo jeito dele, eu acho que ele deve ter deixado o irmão pra trás, pra que ele conseguisse fugir.
Nós, que nem nos conhecíamos antes da festa na casa do David estávamos mais tristes pela morte do Adolfo que ele pela morte do irmão. Muito estranho.

Mas não tivemos muito tempo pra verificar a veracidade da história. Pouco depois, ouvimos barulho de caminhões blindados e helicópteros...os militares estavam de volta.
E pelo que sintonizaram no rádio, parece que vieram atrás de nós.
Samara nos mostrou um porão "secreto" tipo aqueles que se vê em filmes de suspense e todos descemos para nos esconder.
A porta da casa se abriu e ouvimos vários passos sobre nossas cabeças. Uma voz grave dava ordens aos soldados que revistavam os cômodos da casa de Samara em busca de sua "caça".
Todos os passos pareciam ter ido em direção ao terraço, então levantei a porta do porão e dei sinal para que  os outros subissem para tentarmos fugir.
Lucas e Leanderson vieram primeiro e foram em direção à porta, o gordinho vinha logo em seguida e não demorou para que desse razão a meus instintos...deixou cair uma de suas ferramentas escada abaixo, a merda estava feita!
Os militares começaram a descer, o gordinho e Gabriela saíram e não vi para onde foram, dei sinal para que Samara, Suzanna e Joanna continuassem no porão e corri para o banheiro para me esconder e tentar surpreender o chefe da operação. Vi Lucas e Leanderson abrirem a porta e sairem de casa.
Em seguida, começaram os tiros. Fuzis, pistolas, a calibre 12 que estava com Lucas...helicópteros...o som ensurdecedor do caos tomou conta do ambiente e depois do que pareceu ter levado horas, finalmente cessou.
O silêncio só foi quebrado pelas botas dos militares passando por mim no corredor e pelos pigarros do General, entre uma ordem e outra.
Nesse momento, um turbilhão de pensamentos invadiu minha mente. Eu tinha medo de ser encontrado, medo de ter perdido mais duas pessoas de nosso grupo e medo de que encontrassem as meninas no porão.
Quando os militares, enfim, foram embora, fui ao encontro das meninas no porão e logo depois fomos para a rua.
Parecia uma cena daquelas em que se vê nos noticiários quando mostram guerras do outro lado do mundo. Eram carros destruídos, cápsulas de balas para tudo quando é lado e sangue, muito sangue.
Procuramos por Lucas e Leanderson...não encontramos. Nenhum corpo jazia no local.
O que nos deu um alento de esperança, foi que também não víamos o carro-forte em lugar algum. Com sorte, nossos dois companheiros poderiam ter conseguido chegar até ele e fugido.
Agora, nos restava esperar e torcer para que eles realmente tivessem conseguido fugir e, principalmente, que continuassem vivos!

domingo, 11 de março de 2012

O Primeiro Dia do Fim do Mundo - Parte 5

Aquela declaração havia nos deixado apreensivos. Mas antes que pudéssemos avaliar se Gabriela tinha sido ferida, ela se antecipou, abriu os armários da lavanderia e num ato de desespero, começou a passar desinfetante no rosto.
Ela ficou um pouco tonta, provavelmente por causa do forte cheiro de desinfetante, mas não parecia estar mal.
Apesar da preocupação, resolvemos seguir em frente, rumo ao primeiro andar.
Lá, como Adolfo nos informara anteriormente, moravam um casal de velhinhos.
Sinceramente, eu não tinha intenção nenhuma de salvá-los se estivessem em casa. Eu só queria saber se a porta estava trancada. Se estivessem vivos ou não, não faria diferença. Aliás, acho que só teríamos problemas se eles viessem conosco, com o mundo louco desse jeito.
Giramos a maçaneta e a porta estava destrancada. Entramos na sala e vimos a silhueta de um homem no corredor da casa. Adolfo chamou seu vizinho, mas não houve resposta, ele apenas entrou vagarosamente no cômodo a sua esquerda.

Lucas e Adolfo tomaram a dianteira e foram em direção ao velho, Leanderson e eu fomos em seguida, para verificar os outros cômodos e dar cobertura e as mulheres ficaram na sala, aguardando e prestando atenção à porta.
O cômodo no qual o velho entrou estava escuro e a porta estava parcialmente fechada. No que Lucas pôs a mão para procurar o interruptor, algo o agarrou com força. Sem pensar duas vezes, Adolfo partiu pra cima, acertando uma coronhada com sua calibre 12 na cabeça de seu antigo vizinho que agora, jazia com a mão agarrada ao braço de Lucas.
Tentei ajudá-lo a se soltar e nesse momento, a companheira do velho surgiu correndo e gritando, enlouquecida em nossa direção. Leanderson e Lucas entraram no quarto. Eu tentei empurrar a mulher para dentro da porta que estava atrás de mim, afinal, eu era o último obstáculo entre a velha possuída e as mulheres na sala.
Quando girei com ela, perdi o equilíbrio e fui arremessado contra a parede. Numa situação normal, eu não teria dificuldades em me soltar da doce velhinha, mas como já falei, não estamos sem situações normais agora  e velhinha não tinha nada de doce.
Eu já tinha noção do que iria acontecer, mas pra minha surpresa, Gabriela e Joanna vieram em meu auxílio. Pelo visto, as duas tiveram a mesma idéia de usar o abajur, mas Joanna foi mais forte.
Gabriela soltou o abajur e Joanna o despedaçou na cabeça da velha.
Vasculhamos a casa em busca de outros "possuídos" e coisas que poderiam nos ser úteis.
De repente, começamos a ouvir uma música de um violão. Olhamos  pela janela pra descobrir de onde vinha aquele som.
Era do terraço do prédio ao lado. Um homem berrava uma música, que atraiu uma multidão de "zumbis" para aquela região. O homem gritava e xingava os zumbis, desafiava-os a subir e pegá-lo e estava completamente nu, provavelmente bêbado.

Na porta do apartamento, começamos a ouvir batidas e gemidos. O barulho que fizemos quando lutamos com o casal de velhinhos deve tê-los atraído do andar de cima.
Um pouco depois, Nadja entrou pela janela, descendo numa corda improvisada com lençóis.
A essa altura, eu começava a dar mais credibilidade aos filmes. Maletas de agente secreto, zumbis, cordas feitas com lençóis, tudo o que eu só tinha visto nas telas do cinema, estava acontecendo de verdade.
A russa disse que poderia ajudar alguém a subir pela corda improvisada e que seria possível subirmos todos, um a um, mas que levaria um certo tempo. Adolfo quis ficar sozinho no apartamento, por ser o mais pesado e  com o discurso de que ele quem havia nos levado para aquela situação caótica.
E enquanto discutíamos o que fazer, sempre com Nadja nos apressando e dizendo que foi idéia do Adolfo ir até lá e que era a vontade dele ficar sozinho, ouvimos um urro assustador vindo da rua.
Quando olhamos, vimos um homem muito grande e forte, furioso. Parecia que ele controlava todos os outros com aquele urro. E então ele nos viu!
Com mais um urro, metade dos zumbis da rua começaram a invadir o prédio do bêbado pelado, que continuava gritando insultos pra baixo e a outra metade, começou a bater na porta do prédio onde estávamos.
Não lembro quem foi que tentou atirar no grandalhão, mas ele se escondeu atrás do carro-forte no qual viemos. Além de controlar os outros, esse babaca ainda é inteligente pra se esconder!
O desespero começou a bater.
Nosso caminho estava bloqueado por zumbis que batiam à nossa porta e, mesmo que conseguíssemos sair, ainda teríamos que nos preocupar com toda aquela multidão lá em baixo.
Como Lucas, Leanderson e eu não iríamos abandonar o Adolfo, resolvemos que Nadja subiria com as mulheres pela corda e que daríamos um jeito de cuidar dos zumbis da porta.
Ao lado, as músicas e xingamentos continuaram por um tempo, mas depois de Nadja ter começado a escalar, a serenata e repúdio do bêbado pelado cessou. Uma estranha coincidência não é mesmo?

Na sala, decidimos que Leanderson abriria a porta, já que ele é o mais rápido de nós, e correria pro lado.
Atrás da porta, Adolfo estaria com seu "trovão"(a arma de calibre 12) e atiraria assim que os zumbis entrassem.
De frente para a porta, numa distância segura, Lucas e eu ficamos lado a lado, com armas em punho, aguardando para atirar caso algum deles resistisse ao tiro de Adolfo e fosse na direção dele.
Leanderson abriu a porta e correu. Dois zumbis entraram e receberam as boas-vindas de Adolfo. Um terceiro, foi atingido por Lucas e nosso caminho estava livre novamente.
Fui para o corredor e ouvi a porta de entrada sendo esmurrada. Ela cederia em breve.
Leanderson passou correndo como uma bala, rumo ao terceiro andar, seguido de Lucas e Adolfo.
Joanna e Gabriela vieram em seguida, a porta lá em baixo estava aberta. Seria questão de tempo até que os zumbis chegassem até nós e nem sinal de Suzanna.
Esperei o máximo que pude, fechei a porta torcendo para que a outra japonesa estivesse subindo pelos lençóis com a Nadja e fui pro terceiro andar.

Quando cheguei, me deparei com a seguinte cena:
Adolfo estava indo em direção à sua esposa, que o aguardava de braços abertos e com um sorriso, Lucas, Leanderson, Joanna e Gabriela observavam com desconfiança.
A mulher de Adolfo falou alguma coisa com ele e parece que todos ficaram aliviados.
E assim que ele a abraçou, as feições dela mudaram! O olhar se tornou agressivo e insano. Ela o agarrou e abriu a boca. Quando seus dentes se aproximavam do pescoço de seu amado, BANG!
Lucas havia acertado um tiro certeiro na cabeça dela, salvando Adolfo que caiu sem reação, em choque.
O barulho na escada nos dizia que os zumbis estavam chegando. Perguntamos pro Adolfo como faríamos pra chegar ao terraço e ele não nos respondeu.
Com um visível grande esforço, ele olho para a varanda e apontou nosso destino, logo depois, voltou a olhar para o corpo do que um dia foi sua esposa.
Cobri o corpo dela com um lençol que tirei do quarto deles e, com a ajuda de Joanna e Lucas, conseguimos arrastar Adolfo até o terraço, passando por uma escada em estado deplorável que Gabriela derrubou para que nenhum daqueles monstros nos seguisse.

No terraço, encontramos Nadja ajudando Suzanna a subir para se juntar a nós e, no terraço ao lado, pudemos ver uma garota de uns vinte anos sentada no parapeito do prédio, balançando os pés e olhando para a rua com toda a calma do mundo em seu vestido preto.
Gabriela arremessou um pregador na garota, que olhou pra gente e sorriu. Até agora não sei por quê diabos ela jogou o pregador na garota. Na verdade, não entendi nada do que ela fez até agora..acho que ela não é muito certa da cabeça.
Nossa única alternativa agora era passar para o outro prédio.
Nadja improvisou uma corda  para nos ajudar a passar e foi na frente, correndo por cima da corda, esperando pelo próximo equilibrista.
A distância era curta, cerca de um metro e meio, nada muito difícil. E lá foi Leanderson, passando com tranquilidade e cheio da ginga suburbana.
Todos foram passando, mas Adolfo continuava em choque, ajoelhado no chão, com olhar perdido.
Tentei animá-lo, dei um tapa em seu rosto pra ver se ele "acordava", mas nada surtia efeito. Até que ouvi um grito. Suzanna era a última, antes de Adolfo e eu, a fazer a travessia, mas o estresse e o medo de cair a fizeram travar. Ela ficou parada nas cordas, entre um prédio e outro. Poderia cair a qualquer hora.
Então, relembrei Adolfo do que ele tinha me dito anteriormente. Que havia prometido proteger Suzanna e que agora ela precisava da ajuda dele.
A garota que estava no parapeito do outro terraço também ajudou, falou alguma coisa que fez com que Suzanna continuasse a travessia.
Adolfo parecia ter recobrado a consciência e tirou força sabe-se lá de onde.
Jogou a calibre 12, o revólver Magnum e o colete pro outro lado para reduzir o peso.
Ele se preparou, correu, saltou e...CAIU! Ele bateu com força na parede e não conseguiu se segurar.
Era apenas um metro e meio, mas acho que Adolfo ainda tinha muitas carga emocional que o fizera hesitar por um breve momento, proporcionando o erro.
O homem mais preparado entre todos nós, havia literalmente caído e ainda teremos muitos problemas pela frente.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

01/01/2012 - O Primeiro Dia do Fim do Mundo - Parte 4

Antes de seguirmos para nosso novo destino, achamos necessário explicar à Nadja o que estava acontecendo e pra onde iríamos, afinal, ela está com o carro de Lucas.
De início ela reluta com a idéia, acha loucura e tenta nos convencer a deixarmos Adolfo para trás. "É uma má idéia!", "A essa hora, a esposa dele já está morta, ou coisa pior" - ela diz.
Mas Adolfo está decidido a salvar sua esposa. Seja trazendo a sem segurança conosco, ou dando lhe o merecido descanso.
E com certeza, não sou o único do grupo a achar que ele pode ser de grande ajuda. É um cara forte, determinado e apesar de os outros acharem que eu saiba usar uma arma, devido a meu tiro de sorte que salvou Gabriela, ele é o único que realmente tem a manha do negócio. E acho que nem preciso mencionar o carro-forte!
Sendo voto vencido, Nadja resolve nos acompanhar(acho que não teve muita escolha) com a condição de ter sua arma de volta. Eu disse que seria bom que alguém fosse no Doblò com ela para evitar que novamente, a perdêssemos de vista. Lucas se ofereceu para ir com ela e acho que entrou em acordo para ter seu carro de volta, devolvendo-lhe a arma.
Partimos para a Química torcendo para que encontrássemos a esposa de Adolfo viva e normal e que pudéssemos pegar alguns mantimentos da casa dele. Não sei se conseguiríamos dormir depois de tudo o que aconteceu, mas droga...se o local fosse seguro, com certeza eu gostaria de tomar um banho e deitar num colchão ou num sofá por algumas horas!

Algum tempo depois,chegamos em nosso destino. Um prédio modesto, de três andares e próximo ao Parque de Exposições da cidade.
Estacionamos os carros perto da porta de entrada, preparados para uma fuga rápida, caso fosse necessário.
Antes de entrar, pedimos para que Adolfo nos explicasse como eram os andares, as escadas, quantas pessoas moravam lá dentro e se havia outra saída além da porta à nossa frente.
"São três andares, mais o terraço. Um apartamento por andar. Aqui no térreo tem o hall de entrada e uma sala onde funciona a lavanderia.  A escada não é muito larga, mas podemos subir em duplas, sem problemas. No primeiro andar mora um casal de idosos. São tranquilos e muito gente boa, espero que estejam bem. No segundo andar mora uma família. E no terceiro, só eu e minha esposa." - disse ele.
Um apartamento por andar, um casal de idosos, uma família e um casal de meia-idade. Há 10 anos atrás, eu poderia entrar e sair desse lugar tranquilamente. Seria como roubar doce de criança...mas os tempos mudaram e as pessoas mudaram...algumas, pra coisa muito pior!

Não sei o que diabos aquela russa estava pensando, mas ela passou uma pasta preta na cara...e o Lucas também passou. Como se ter a cara preta fosse ajudar de alguma forma pfff. Se fosse assim o Adolfo não teria problemas em trazer sua esposa.
Ok, isto pode ter soado meio racista,  mas o cara é negro e nem por isso os zumbis, demônios, ou o que forem, deixaram de ir atrás dele no supermercado! Não vai ser por causa de uma maquiagem que ficaremos a salvo, tenho certeza! Aliás, não tenho! Até agora, nós só sabemos que eles são atraídos pelo barulho.
Enfim, nesse momento Joanna me chamou pra longe do grupo, ela estava preocupada com o fato de Suzana estar nervosa demais, o que poderia fazer com que ela, inconscientemente, causasse algum problema, mesmo tentando ajudar.
Admito que eu também estava preocupado com isso. E é claro, também não havia esquecido que a maluca havia apontado uma Magnum pro meu saco!
Conversei separadamente com Adolfo e apesar de o resto do grupo ficar desconfiado com tantos "segredinhos", ele era o único que poderia convencer Suzana a entregar a arma, ou ficar no carro enquanto nós estivéssemos no prédio. Ele conversou com ela, uma vez mais olhares desconfiados foram trocados. Aliás, acho que a única que não desconfia de mim é a Joanna...
Suzana entregou a arma para Adolfo, mas como todos já esperavam, se recusou a esperar no carro então, entramos no prédio. Exceto Nadja, que foi procurar uma maneira de entrar pelo terraço.
Não me importei. Ela já mostrou que consegue se virar e iria acabar sumindo de nossas vistas alguma hora.

Enquanto fechávamos a porta, vimos um homem correndo rua abaixo em nossa direção. Não esperamos pra ver seu estado, nem se ele nos havia visto, só fechamos a porta e aguardamos silenciosamente. O homem continuou correndo em direção à linha férrea, ao que parece, não nos notou.
Acendemos as luzes já que o primeiro raiar do Sol de 2012 ainda levaria algumas horas. A nossa frente as escadas para o primeiro andar, ao lado, o balcão do zelador e atrás dele, as portas da lavanderia.
Todos concordamos que deveríamos verificar todas as portas. No caso de estarem fechadas, seguiríamos em direção ao apartamento do Adolfo. Do contrário, entraríamos em busca de sobreviventes e utensílios que pudessem nos ajudar, além é claro, de garantir que nada subisse atrás de nós e nos pegasse de surpresa.
Lucas se antecipou e foi em direção ao balcão. Fui com ele, dando algumas dicas para que fizesse menos barulho e se movimentasse corretamente, para não chamar atenção de ninguém que pudesse estar por ali. Nada atrás do balcão, seguimos para uma das duas portas atrás dele. A primeira que abrimos era um depósito. Só encontramos uma cadeira de madeira velha, da qual tirei os quatro pés para fazer pequenos "cacetetes" e algumas folhas de papel e canetas. Peguei  as folhas e uma caneta, podem ser úteis no futuro.

A porta era como a de um Saloon de filmes de faroeste, então, assim que o último de nós entrou, ela se fechou atrás de nós. Os únicos que não entraram foram: Leanderson e Joanna.
Assim que Adolfo acendeu a luz nos deparamos com um jovem rapaz ao lado de Gabriela e uma senhora próxima a duas tábuas de passar roupas.
Atrás da senhora, uma caçamba de roupas sujas e ao nosso redor, armários e máquinas de lavar industriais.
E então tudo aconteceu ao mesmo tempo! O garoto gritou enfurecido! Gabriela correu pra cima dele(de novo!) Eu corri em direção às tábuas e, por sorte elas não estavam chumbadas ao chão.
Peguei uma das tábuas pelos pés e pressionei a senhora zumbi contra a caçamba de modo que ela não conseguia esticar seus braços pra tentar me agarrar.
Num piscar de olhos, Adolfo deu uma coronhada com a calibre 12 na cabeça do garoto que, instantaneamente foi acho chão e, ao mesmo tempo, surgem na lavanderia Leanderson e Joanna.
Com a faca em punho, Leanderson veio em meu auxílio e cortou a garganta da mulher, que caiu segurando o pescoço tentando se agarrar à vida, ou ao que restara dela.
Uma vez mais, a sorte estava do nosso lado e todos saíram bem. Suzana estava encolhida, tremendo entre duas máquinas de lavar.
Pensei que Joanna estaria acostumada a ver cenas desse tipo, já que ela estava quase se formando em Medicina, mas como eu disse, as coisas mudaram. Ela não aguentou e vomitou, mas logo se recompôs.
E então, quando tudo estava se acalmando, Gabriela nos chamou.
Acariciando o lado esquerdo do rosto(o qual eu me lembrava, havia respingado sangue quando estourei a cabeça do primeiro zumbi, no condomínio de David) ela nos disse:
"Meu rosto está ficando dormente..."

domingo, 19 de fevereiro de 2012

01/01/2012 - O Primeiro Dia do Fim do Mundo - Parte 3

Como os "zumbis" começaram a perseguir Leanderson, conseguimos ligar o carro e manobrar para sair do condomínio. Chegamos perto do local combinado, mas não havia sinal nem dele, nem do rebanho.
De repente, alguma coisa atravessou a cerca viva. Era Leanderson, mas até que fosse possível ver que ele continuava consciente, não paramos o carro, apenas reduzimos a velocidade.
Tendo constatado isso, já que seus movimentos eram firmes e seus olhos possuíam apenas o desespero, paramos por tempo suficiente para que ele entrasse e então continuamos nosso caminho em direção à BR-393, passando pela Vila Helena.
Estávamos reorganizando nossos pensamentos quando um farol acende atrás de nós. Uma moto, aparentemente uma Harley.
Pilotando a moto, havia uma mulher, loira...russa. Nadja! Como não percebemos que ela havia sumido? E onde estava a maleta de aço?
Lucas manobrou o carro e fomos em direção a ela, apenas para descobrir que a maleta já havia sido entregue, ou pelo menos, era isso que ela afirmava.
Mais uma vez, começamos um pequeno interrogatório do qual não tiramos nenhuma informação que fosse realmente útil. Descobrimos apenas que ela pretendia seguir para a capital ou para qualquer lugar que possuísse um heliporto.

Uma vez mais, tínhamos Nadja em nossa companhia e o fato de ela precisar chegar a um heliporto, nos fez pensar que ela possuía um refúgio seguro em algum lugar e que tinha meios de chegar até ele. Decidimos acompanhá-la até o heliporto. Afinal, um local seguro, independentemente de onde, já era uma excelente idéia para nós.
Como a viagem poderia durar mais do que o previsto, tínhamos a noção de que já não vivíamos num mundo normal, chegamos ao consenso de que seria necessário pegarmos algumas coisas que pudessem ser úteis na viagem e, principalmente, alguma comida e água.
E em nosso caminho, uma ótima opção para tudo isso: um supermercado.

Ficou decidido que, por conseguirmos fazer menos barulho que os outros, Nadja e eu, entraríamos no supermercado para abrir as portas e então chamaríamos os outros para que conseguíssemos carregar mais coisas em menos tempo.
Todas as luzes estavam apagadas, mas era possível ouvir um ruído vindo do fundo de um dos corredores. A fim de averiguar a origem do ruído, Nadja pegou um recipiente plástico e misturou alguns produtos que não consegui identificar. Em seguida, arremessou o recipiente para um dos corredores à nossa frente.
Durante algum tempo, nada aconteceu. Nenhum movimento, nenhum barulho...apenas a escuridão e o silêncio além do ruído ao fim do corredor.
Seguimos com cautela até enxergarmos uma fraca luz saindo de uma sala pequena. Lá dentro, um rádio chiava, sem sinal de seu dono. Havia marcas de sangue no chão, logo, existia alguém lá dentro...provavelmente, o vigia. Não queríamos acreditar que fosse algo pior.
Pegamos algumas cestas e iluminamos o caminho com as lanternas dos celulares, para evitar acender as luzes do supermercado e acordar o vigia, caso ele estivesse apenas dormindo, e para não atraírmos nada que estivesse andando fora do estabelecimento.
Enquanto "íamos às compras", escutamos um barulho vindo da ala ao lado. Parecia que se dirigia na mesma direção que a gente, portanto, nos encontraríamos com o que quer que fosse, assim que chegássemos ao fim do corredor. Fiz sinal para que parassem e aguardassem ali enquanto eu dava a volta por trás do corredor onde estávamos para descobrir o que era.
Consegui me esgueirar e chegar até nosso perseguidor, o vigia.
Com a arma em sua cabeça, ordenei para que me desse sua arma e que acendesse sua lanterna, para que o grupo pudesse nos identificar quando nos visse.
Agora, além da pistola com silenciador, eu tinha também um revólver. Nada mal pra quem havia acabado de sair da prisão e pensava em começar uma nova vida, hein!?
Tentamos explicar o que aconteceu e que não éramos ladrões...na verdade, estávamos roubando mercadoria do supermercado, mas na situação em que o mundo se encontra atualmente, era questão de tempo até que outras pessoas fizessem o mesmo. Pelo menos não estávamos depredando o lugar, apenas pegando o suficiente para conseguirmos comer até chegar onde precisávamos.
O vigia, apesar da idade avançada, era com certeza mais confiável que o guarda da guarita do condomínio onde David morava, mas se recusava a acreditar no que dizíamos. Ele nos explicou que as marcas de sangue eram dele. Havia caído da escada tentando trocar a lâmpada e se cortou com o vidro.
Mesmo não acreditando na história que contamos, ele aceitou nos ajudar a carregar o carro para irmos embora rápido. Não que tivesse alguma opção, já que as armas estavam comigo, mas eu não faria mal algum a ele. Eu sabia que ele realmente não tinha noção do caos que estava acontecendo nas ruas.
Foi quando as coisas estavam parecendo começar a dar certo e pronto, mais uma vez, o destino resolve nos testar.

Uma luz forte vindo do lado de fora do supermercado, se aproximava cada vez mais rápido. Pneus cantando enquanto o motorista tentava controlar o carro e de repente, BUM! Um carro forte invadiu o supermercado!
Antes da colisão, só tive tempo de correr e me esconder atrás de uma das prateleiras. Não vi o que aconteceu com Lucas e os outros, apenas corri e me escondi, evitando ser atingido pelo carro ou pelas prateleiras que ele derrubou.
De dentro do carro forte, saiu uma pessoa, mas ficou encoberta pela porta do carro e escondida pelas sombras. Um "click" rápido e BAM! Um tiro pro lado de fora...provavelmente, algum zumbi acabava de ser eliminado.
Tentei me aproximar e render a pessoa, da mesma forma que fiz com o vigia, afinal, um carro blindado seria bem mais útil que um Doblò, mas quando cheguei na porta, não havia mais ninguém.
Debaixo do carro, uma voz feminina me mandou largar a arma pra que minhas bolas fossem mantidas!
Tá bom queridinha, o bicho tá pegando e vou largar minha arma só porque alguma garota escondida tá mandando.
Uma das coisas que aprendi antes de ir pra prisão, é que em uma situação ruim que parece não ter saída,  você deve ganhar o máximo de tempo possível. É sempre bom adiar o fim, ainda que por alguns segundos. Com sorte, você adia o fim por mais algumas horas, ou alguns anos.
Mas a garota parecia cada vez mais nervosa e pronta pra atirar a qualquer momento. E acreditem, eu dou muito valor às minhas bolas!
Foi então que a cavalaria chegou...mas infelizmente pra mim, era o apoio dela! Agora, além de ter uma arma apontada pro meu amigo, tinha uma, ainda maior, cutucando minhas costelas.
"Largue as armas!", agora, uma voz masculina bradava em alto e bom tom!
O homem parecia irredutível em sua oferta para que eu largasse as armas, mas mais calmo que a garota que, agora já não estava mais embaixo do carro.
Arremessei as armas para longe, e falei mais alto, na esperança de que Lucas, ou a Nadja me ouvissem e pegassem as armas para conseguir me tirar daquela situação. Se Leanderson, Gabriela ou Joanna pegassem as armas, provavelmente eu continuaria mais seguro só com a que estava nas minhas costelas.
Após averiguar que eu não era uma ameaça e de eu dizer que estávamos no supermercado pelo mesmo motivo, o policial baixou a arma e me explicou que no centro da cidade a situação era pior.
"As pessoas estão possuídas! Um atacando o outro, mordendo, arranhando, sem motivo! Estão todos loucos! Isso é coisa do demônio!", dizia ele.

Lucas e Gabriela apareceram logo depois, se rendendo e sendo revistados, assim como eu.
Pouco depois, a mulher que havia ameaçado minhas partes baixas, voltava com o resto de nosso pequeno grupo como reféns.
Ela parecia não acreditar que seu parceiro havia baixado a guarda. Então enquanto ele explicava que nós éramos pessoas normais, sem o demônio no corpo, o vigia apareceu com as duas armas que eu havia descartado!
O vigia e a mulher apontavam as armas um para o outro, até que o policial soltou sua arma calibre 12 e falou para ela obedecer. O velho estava descontrolado. Também pudera.  Dois grupos distintos invadem o lugar que ele deveria proteger, falando maluquices sobre pessoas estarem possuídas, terem virado zumbis. Meras desculpas para roubar mercadoria, deve ter pensado...
E com todo o barulho que fizemos, um novo rebanho começava a se formar na rua e caminhava em nossa direção.

O vigia ficou indeciso sobre o que fazer(éramos oito pessoas para ele ficar de olho e os zumbis estaam chegando), então sugeri que nos deixasse dentro do carro forte. Parece que ninguém entendeu minha sugestão, mas se vou esperar que um vigia idoso lute contra zumbis ou demônios para que eu continue vivo, estar preso dentro de um carro forte não me pareceu tão ruim.
Não sabemos o que de fato aconteceu, apenas ouvimos o velho gritar algumas coisas e depois, o som de um disparo.

A porta do carro forte se abriu e o velho nos mandou sair, devolvendo as armas pra gente. Inclusive a que era dele.
Ele finalmente acreditava no que havíamos dito, mas a verdade custou caro. Ele possuía um ferimento causado por um dos zumbis, ou possuídos...sei lá, chame do que quiser.
"Apenas peguem o que precisarem e vão embora" disse o velho, dando as costas para nós e caminhando rumo a sua cadeira.
Se me lembro bem dos filmes de zumbi que assisti antes da prisão, ser ferido por um deles era o que fazia com que você se tornasse um deles.
Apontei a arma pra cabeça do velho enquanto ele caminhava para longe, desolado. Por alguns segundos, pensei em acabar com a vida dele e impedir que se tornasse uma aberração, mas um tiro atrairia novos zumbis e nós íamos deixar o local assim que pegássemos algumas caixas de enlatados e algumas garrafas de água.

Para nossa surpresa, uma vez mais, Nadja não se encontrava entre nós.
"O Doblò!" Todos pensaram. "Ela vai pegar nosso carro e fugir".
Explicamos o que havia acontecido conosco o mais rápido possível para Adolfo e Suzana e chegamos a conclusão de que juntos teríamos mais chance de sobreviver, ainda mais com um carro forte e o treinamento que Afonso tem com armas de fogo.
Ah, sim...Adolfo é o policial que dirigia o carro forte. Um negão daqueles que se você vê chegando com algemas na prisão, torce para que ele seja colocado em outra cela. Suzana, assim como a Joanna, é uma japonesa...sensei, nissan...sei lá como é que chamam, mas ao contrário do que pensávamos, ela não é policial. Ela foi salva pelo Adolfo enquanto ele passava pelo centro da cidade.

Agora temos mais duas pessoas no grupo. Pela maneira como Suzana está no fundo do carro, parece que ainda vamos ver coisas muito piores pela estrada.
Precisamos encontrar Nadja para conseguir fugir dessa loucura, mas antes, vamos até a casa de Adolfo para que ele se certifique de que sua família está bem, ou que pelo menos descanse em paz. Essa foi a condição que ele impôs para seguir conosco...e ninguém se mostrou contrário à idéia de termos alguém que realmente saiba atirar, do nosso lado.
Já perdi muito tempo escrevendo...hora de dirigir para a casa de Adolfo...Química, um bairro com ruas estreitas e de difícil acesso.
O ano mal começou...e o mundo já está acabando!

01/01/2012 - O Primeiro Dia do Fim do Mundo - Parte 2

Era apenas um gato revirando lixo...mas atualmente, ser precavido pode fazer a diferença entre continuar vivo ou morrer.

Continuando de onde havia parado.
Depois que o moleque foi embora, resolvemos nos preparar, caso precisássemos lutar por nossas vidas. Era meia-noite e os fogos de artifício, tão comuns nesse momento, não foram ouvidos. Ainda não sei o que me levou a ter essa idéia, mas peguei os que David havia comprado para nossa comemoração...de alguma forma, pensei que poderiam ser úteis.
Uma vez mais, ouvimos barulho vindo do portão. Dessa vez, eram os militares. Impacientes, queriam que abríssemos o portão para que entrassem, mas já havíamos visto, alguns momentos antes, os mesmos militares, invadindo a casa em frente e separando uma garotinha de sua família. Por quê eles fariam isso? O que eles queriam de nós?
Não abrimos o portão. Pelo interfone, dissemos que não sabíamos como abrir o portão e que o dono da casa não se encontrava. Eles insistiram e ordenaram ao guarda da guarita(um rapaz manco e completamente inapto para o trabalho) que abrisse o portão. Conseguimos convencê-lo, através de uma comunicação da linha interna do condomínio, a confirmar nossa versão de que não seria possível abrir o portão sem que David estivesse no local.
Quando parecia que eles arrombariam o portão para invadir a casa, ouvimos gritos histéricos. Gritos estes, que também despertaram a atenção dos militares.
Uma vez mais, nos sentimos seguros. Como somos tolos não é verdade?
Quando os barulhos cessaram, olhamos as imagens do circuito de segurança, mas a única coisa que vimos, foi o guarda da guarita caído, provavelmente ferido. Tentamos contato com ele, mas parecia que ele não conseguia articular palavras.
Alguns de nós tentaram buscar seus pertences nos carros, mas ainda na garagem, foram surpreendidos por Nadja, a russa loira, que agora trajava uma roupa diferente da que estava anteriormente, e apontava uma arma para eles. Da janela do segundo andar, não consegui entender o motivo que a levou a tomar essa atitude, mas não ia esperar até que ela apontasse a arma pra minha cabeça, para perguntar.
Como havíamos pensado, a maleta tinha alguma coisa de importante e ela voltou para buscá-la. Nunca gostei de armas de fogo. Elas dão uma falsa sensação de poder e segurança e, graças a isso, eu sabia que Nadja não conseguiria manter os olhos em todos ao mesmo tempo. Éramos cinco pessoas na casa quando nos conhecemos, mas o caos que havia tomado conta da cidade e o fato de que ela se sentia segura por estar armada contra civis, fez com que ela não sentisse minha falta. Assim que ela passou pela escada, desci silenciosamente por trás dela e consegui desarmá-la com um chute.
Agora, éramos nós que possuíamos a arma hahahahahahaha. Grande coisa! Nenhum de nós sabia como usá-la. Mas eu não podia deixar isso transparecer e sabia que as pessoas ali não confiavam umas nas outras. Também percebi que, principalmente as mulheres, não haviam gostado de mim, desde o início. Mas até que foi fácil convencê-los a deixar a arma comigo.

Mesmo com a arma apontada para sua cabeça, Nadja não nos contou muita coisa sobre o que estava acontecendo. Disse apenas que a maleta continha um tipo de vacina para vacas e que devia entregá-la para alguém. Resolvemos que iríamos com ela até o local combinado para entregar a maleta e que depois resolveríamos o que fazer.
Quando estávamos chegando perto dos carros, estacionados ao lado de fora da casa, percebemos o guarda da guarita vindo em nossa direção. Cambaleando e emitindo sons estranhos, ele parecia bastante ferido, mas não parecia nos reconhecer.
Foi aí que vimos uma cena assustadora. Uma mulher, a mesma que havia perdido a filha para os militares, estava do outro lado da rua, com muito sangue saindo de sua boca e o mesmo olhar perdido que o guarda.
Ela gritou ou sei lá o que era aquilo e partiu correndo em nossa direção, como se fosse nos atacar. Para minha surpresa, Gabriela empunhou uma das facas que havia pego e partiu pra cima da mulher.
Gabriela errou a facada, a mulher a agarrou pelos braços e acho que ia mordê-la...não sei o que ela ia fazer, mas não consegui esperar. Eu estava com a arma de Nadja e por impulso, atirei.
Não pensei que fosse tão fácil estourar a cabeça de alguém, mas acho que numa situação dessas, o instinto de sobrevivência fala mais alto.
A arma tem silenciador, mas acho que o grito que a mulher deu atraiu outros gritos vindos de dentro da casa dela. Voltamos correndo para dentro da casa, trancamos o portão, mas um homem conseguiu entrar e ficou batendo na porta. Ele parecia normal e inconsciente ao mesmo tempo. Um homem e um garoto saíram correndo e gritando, da casa em frente. Agarraram o portão como e o chacoalhavam como se fossem destruí-lo a qualquer momento.

Estávamos novamente presos dentro de casa. Enquanto todos tentavam pensar numa maneira de se livrar do homem que batia à porta e sobre o que fazer com os outros dois no portão, fui pro andar de cima. Pensei que, se o grito da mulher que matei foi o que atraiu os outros que estavam no portão, então pode ser que, talvez, um barulho em outro lugar os atraísse.
Peguei os fogos de artifício e apontei para a casa de onde saíram, torcendo para que minha teoria se confirmasse.
Eles partiram e culminaram num belo espetáculo de cores e sons, mas o melhor do show foi que a dupla do portão também se interessou por ele.
Não tínhamos muito tempo até que os dois perdessem o interesse pelos fogos, então corremos em direção aos carros, um por um, fazendo o mínimo de barulho possível, já que esse é um dos fatores que atrai esses loucos...ou zumbis, seja lá como você queira chamá-los. Ainda não acredito que sejam zumbis. Seus corpos não estão se decompondo e alguns deles, como a família do outro lado da rua, correm! Eu nunca vi zumbis correndo nos filmes!
Quando quase todos nós estávamos no carro, o Doblò do Lucas, vimos uma cena assustadora. Um grupo imenso com esses "zumbis" vinha em nossa direção. Joanna estava saindo da casa de David e não acho que seria rápida o suficiente para chegar no carro antes que eles a alcançassem. E os dois que foram atraídos pelos fogos já voltavam sua atenção para nós de novo.
Foi quando Leanderson saltou do carro e disse para nos encontrarmos do outro lado do condomínio. Então ele gritou alguma coisa e saiu correndo em direção à cerca viva que circunda o condomínio. Apesar de acreditar que,  foi uma completa loucura, uma atitude suicida e impensada, admito que a idéia de Leanderson foi bem efetiva. O "rebanho de zumbis" começou a seguí-lo, alguns correndo, outros caminhando e cambaleando. Graças a isso, Joanna conseguiu chegar em segurança no carro e demos a partida, esperando encontrar Leanderson vivo, onde ele havia nos dito para esperá-lo...

domingo, 12 de fevereiro de 2012

31/12/2011 - O Primeiro Dia do Fim do Mundo. Parte 1

Manhã de sábado - Hoje é o grande dia!
Em algumas horas, sentirei uma vez mais, o delicioso sabor da liberdade!
Quando se fica preso por muito tempo, você sente falta até mesmo daquilo que antes era um incômodo. Quero sentir uma vez mais a chuva caindo sobre meu corpo, o vento bagunçando meus cabelos(assim que crescerem de novo), o Sol aquecendo minha pele! Quero poder olhar as pessoas nos olhos, ver rostos diferentes! Ouvir vozes diferentes!
Saber que tudo isso me aguarda lá fora, me devolve o ânimo que os anos se esforçaram para extinguir.
A primeira coisa que pensei ao acordar, foram as palavras de David: "Anime-se Adrian! O último dia do ano será o primeiro de sua nova vida!". Acho que ele nem percebeu a ironia, mas realmente, isso me animou bastante.

Madrugada de Domingo - As coisas não estão saindo como eu esperava! O mundo mudou enquanto estive preso, mas mudou pra pior! Ainda não acredito no que está acontecendo...as pessoas estão enlouquecendo!
Vou tentar resumir os últimos acontecimentos enquanto estamos "seguros".

Por volta de 18 horas, David me buscou na prisão. Ele não parecia mais aquele garotinho indefeso da escola. Agora, exalava a confiança e austeridade que um médico do porte dele possui.
Quando chegamos em sua mansão, ou "humilde moradia" como ele diz, a festa já havia começado. Ele me apresentou aos outros convidados que já haviam chegado.
Devo dizer que não fiquei surpreso em ver a diversidade existente no círculo de amizades dele, afinal, se a vida seguisse seu curso normal, eu jamais o teria conhecido.
Era perfeitamente plausível que uma festa promovida por David em sua casa, reunisse ao mesmo tempo uma estudante de medicina, um nerd, uma garota maluca, um funkeiro e um ex-presidiário hehehehehe. Eu só não esperava a loira russa que sequer nos notou enquanto conversava ao telefone.
Aliás, acho que David tinha algum interesse nela já que, na primeira oportunidade, se mandou pro "supermercado" pra comprar algumas coisas que estavam faltando pra festa.
Foi só quando eles saíram, que a estagiária de David, Joana, percebeu que a russa havia esquecido sua maleta de aço que possuía uma luz azul piscando.
Com a notícia de que o exército estava nas ruas e que um golpe militar era iminente, a preocupação sobre o conteúdo da maleta fez com que todos na sala começassem a elaborar teorias diversas.
A garota maluca, Gabriela queria abrir a maleta de qualquer jeito, mas sem saber como. Ela e Joana olharam para Lucas, o nerd que leva um computador para uma festa de ano novo. O único que não parecia se preocupar com a maleta, mais que com a carne tostando na churrasqueira, era Leanderson.
Aliás, fico meio incomodado com sua presença. Ele poderia ser uma versão minha, caso não tivesse a sorte de ter sido escolhido pelos pais de David pra ganhar aquela bolsa escolar.

O bom senso parece ter batido na cabeça de todos na sala e resolvemos ligar para David, e avisá-lo sobre a maleta e perguntar como deveríamos proceder. Ele disse que, segundo Nadja(a russa), não havia nada de importante na maleta e que ela voltaria em breve para buscá-la.
Nesse ínterim as coisas começaram a ficar estranhas...a TV saiu do ar, não era possível sintonizar nenhuma estação de rádio e os telefones estavam mudos.
E foi aí que tudo desandou de vez! Começamos a ouvir barulhos de helicópteros e pouco tempo depois, pessoas gritando nas proximidades.
O rádio voltava aos poucos, com mensagens cortadas que pouco informavam, eram repetidas à exaustão. A única coisa que conseguíamos ouvir era: "Mantenham-se em suas casas".

Percebemos através do sinal do rádio, uma mensagem codificada. Código Morse. Lucas conseguiu decifrá-la, mas não revelou todo o conteúdo da mensagem para nós. Apenas repetiu o que já havíamos ouvido no rádio.
E então, a mensagem que eu já ouvira em filmes e nunca esperava ouvir na vida real, surgiu novamente no rádio: "Cuidado! Mantenham-se em suas casas...sendo atacados....zumbis por toda a parte!"

Zumbis!? Aqueles mortos-vivos que querem comer nossos cérebros? Zumbis!? hahahahahahaha
Foi aí que ouvimos um barulho no portão. O desespero tomou conta da gente. Joana disse que poderiam ser os militares atrás da maleta que Nadja havia, supostamente, esquecido. Com medo de qualquer coisa que os militares pudessem fazer conosco, Gabriela escondeu a maleta no congelador....até agora não entendi o que ela quis fazer com isso.
Batidas na porta e gritos de "Daivid, abra a porta! Daivid, abra a porta!" foram suficientes para sabermos não se tratar dos militares, mas a esse ponto, não era possível confiar em ninguém que viesse de fora.
Ele estava frenético...se fosse em qualquer outra situação, eu diria que o garoto havia cheirado o próprio peso em cocaína! Saiu correndo assustado para o andar de cima e escondeu-se embaixo da cama.
Tentamos acalmá-lo, mas ele não confiava na gente. Leanderson tentou tirá-lo debaixo da cama, mas era afastado pelos chutes que o garoto desferia.
Levantamos a cama e Leanderson conseguiu segurá-lo à força, mas ele não prestava atenção ao que dizíamos e não parava de se debater.
Fui obrigado a dar um calmante pra ele...ok...dei um tapa na cara dele pra ser sincero. Mas funcionou.
Joana notou que ele estava ferido, o que não era uma boa notícia para uma possível situação envolvendo ataques de zumbis e exércitos na rua.
Após ter seu ferimento tratado e o aval de Joana, ainda que sem muita certeza, de que ele não ofereceria perigo, ele nos contou que fugiu para a casa de David porque haviam pessoas brigando na rua e que os militares estavam batendo em todo mundo, tentando tomar o controle da situação.
Leanderson, Lucas e Gabriela estavam incomodados com a presença dele e exigiram que fosse embora. Joana e eu, tentamos argumentar, dizendo que não seria seguro para ele sair sozinho na rua de novo, com todo o caos acontecendo bem perto de nossa porta, mas eles estavam irredutíveis e, ao que parece, o moleque estava assustado demais com a gente e resolveu que era mais seguro voltar pra rua.

Ouvi um barulho aqui perto, vou verificar como todos estão e com sorte, volto a escrever de onde parei...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

30/12/2011 - A calmaria antes da tempestade - parte 2

São 9 horas da manhã, acabo de receber um telefonema de meu amigo de infância, David.
Nos conhecemos na escola primária. Os pais dele sempre tiveram muita grana e apoiavam um projeto social onde "adotavam" crianças cujas famílias não tinham condições financeiras de dar uma boa educação a seus filhos. 
Pois é, foram os pais de David que me deram a primeira oportunidade de me tornar alguém na vida.
Infelizmente eles não foram minha única influência e a escola cara que pagavam pra mim, não era o único local onde eu aprendia coisas novas. Talvez, fosse o único local onde eu aprendia coisas boas.
Entretanto, posso dizer que, o que aprendi nas ruas, de certa forma ajudou a fortalecer a amizade que tínhamos, já que era eu quem impedia que David acabasse na lata do lixo no intervalo das aulas pelos valentões. Humpf...valentões hahahahaha até parece que aqueles moleques riquinhos tinham alguma valentia. Podiam achar que eram fortes estando em grupo, mas mesmo dessa forma, aposto que sujariam suas calças se passassem um dia no bairro onde cresci.
Conversamos um pouco ao telefone e descobri que ele agora é professor em uma universidade. Quem diria...aquele garotinho indefeso que passava mal quando precisávamos dissecar um sapo na aula de biologia, hoje responde por Doutor David.
Ele disse que ficou sabendo de minha situação, e que não acredita que fui o responsável por tudo aquilo que os noticiários informavam.
Disse também, que viria me buscar quando eu saísse e que eu estava intimado a comparecer em sua festa de ano novo em sua "humilde moradia". Uma festa com direito a tudo de bom e de melhor. Depois de 10 anos comendo aquela coisa horrível que chamam de comida por aqui, o que mais eu poderia querer!?
Ao final da ligação, me fez um convite para trabalhar com ele em um novo projeto e antes que eu pudesse pensar em responder, ele desligou, deixando no ar palavras que em meus ouvidos, soaram como música: "Só mais um dia e você estará livre novamente!"